quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Um soco no estômago

Será que é possível curar alguma doença sem chegar ao diagnóstico correto? Será que é possível solucionar algum problema sem interpretá-lo corretamente? Será que estamos interpretando corretamente o problema da violência urbana que a cada dia fica mais apavorante? Será que o texto apresentado abaixo poderá ajudar-nos a interpretar tal problema corretamente? Para as três primeiras indagações minha resposta é não. Para a última não tenho resposta, e sim uma sugestão. Pelo sim pelo não (embora não estejamos em um centro de depilação) creio que vale a pena dar uma lida na reportagem da jornalista Any Bourrier.
Um soco no estômago
Filme mostra a explosão da violência urbana, lota cinemas e vira o grande assunto de Paris
PARIS – O filme La haine (O ódio), dirigido por Mathieu Kassovitz, ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes, em maio último. Assim que estreou nos cinemas de Paris, contabilizou 500 mil espectadores em apenas três semanas. E, de quebra, provocou uma polêmica que envolveu a França, por causa de sua temática realista e violenta. Em resumo, é o sucesso do ano e está destinado a marcar época na história do cinema francês.
Por que razão um filme em preto e branco, realizado por um diretor desconhecido, com artistas amadores, cujo enredo é deprimente, mobilizou a juventude francesa? A explicação é simples: La haine é uma produção sincera, objetiva e, sobretudo, contundente. Representa, na Europa, o que Pulp fiction representou na cinematografia americana, ou seja, o filme cult de uma época e de uma geração, um soco no estômago do público.
Desde o primeiro plano, entra-se de cheio no problema universal da divisão entre cidade e a periferia, entre adultos e jovens, entre rejeitados e representantes da ordem social. Em Muguets, uma alegoria dos subúrbios de Paris, a noite começa tensa. Na véspera, Abdel, 16 anos, foi ferido por um policial e vai morrer. Na cidade, policiais e galeras passaram a noite se digladiando porque os amigos de Abdel querem vingá-lo. O filme começa com a sequência que mostra a entrada em Muguets de três jovens raivosos dispostos a acertar contas com a polícia. Hubert, Said e Viniz pisam no asfalto com ódio, cada um deles decidido a se vingar, mas de maneira diferente. Hubert é o mais calmo, Said está enlouquecido, Viniz só pensa em violência. Ainda mais porque, no combate com os policiais, uma metralhadora ficou caída na calçada e, com ela, Viniz vai botar fogo no subúrbio.
Durante os 90 minutos do filme, Kassovitz (leia entrevista abaixo) demonstra como um teorema a extensão do abismo que separa os dois mundos. Seus personagens são os mesmos que se podem encontrar numa cidade brasileira, americana ou europeia. São os garotos que falam uma língua diferente, cheia de gíria, cujo comportamento, para os adultos, vem de outro planeta. O filme é construído sobre um clima de violência que precede o choque final. Como se o diretor avisasse ao espectador: tome cuidado, tudo o que foi dito indica que uma bomba vai explodir no final. Uma bomba que, de fato, explode com a morte dos personagens principais.
O êxito de La haine não resulta somente da violência de seu enredo. O filme de Kassovitz constata, denuncia, agride. Demonstra que os jovens sem rumo sentem ódio porque é tudo o que lhes resta num mundo cruel e sem perspectiva. Apesar de ficcional, La haine é uma imagem realista do abismo social existente entre a ordem (a polícia) e a desordem criativa e dinâmica da juventude suburbana. Cacetadas, gritos, violência policial são as principais formas de expressão de uma guerra civil urbana que Mathieu Kassovitz conseguiu transformar num filme trágico e belo.
'Minha obra é antipática'
Mathieu Kassovitz não aguenta mais. Em poucos meses, transformou-se no diretor francês mais comentado e controvertido. É disputado pelas revistas. Já lhe propuseram até editar discos e fabricar camisetas com o logotipo do filme La haine. Mas frente a tal sucesso, procura manter a cabeça fria, limitando-se a fazer a promoção do filme em regiões menos favorecidas ou nos centros culturais onde a entrada é livre para os verdadeiros heróis de seu filme, isto é, a galera dos subúrbios. Recusando-se a considerar que La haine é um filme "de sociólogo ou de documentarista", ele prefere explicar por que sua produção, apesar do sucesso, "é antipática".
- Qual é a razão do sucesso do filme?
- Minha preocupação é que o público não fique decepcionado quando for ver o filme por causa da propaganda que o precedeu. Também não gostaria que os jovens suburbanos, que colaboraram comigo para a realização do filme, sintam-se traídos. Não houve, de minha parte, nenhuma intenção de "obter sucesso" e, com isto, muito dinheiro. Meu propósito era dar um empurrão no cinema que, ultimamente, anda mal. Digamos que La haine é para mim um filme-panfleto, destinado a fazer evoluir corações e mentes em relação ao cinema, naquilo que o cinema tem de combativo, incômodo, antipático, mas que faz a gente pensar um pouco mais na realidade.
- No filme há três heróis, um preto, um árabe e um branco. Mas só o branco carrega uma arma. Por quê?
- Quando se faz um filme sobre a problemática dos subúrbios, é claro que a gente torna-se maniqueísta. Acaba-se sendo vítima do chavão, do clichê. A razão pela qual decidi que os heróis do filme seriam três pessoas de raças diferentes é justamente para não ser maniqueísta, ou seja, não fazer aquele jogo de "minoria étnica contra a polícia". Meu objetivo foi jogar os jovens contra a polícia.
- Por que optou por um filme em preto e branco?
- Porque isso me lembra as imagens projetadas nos cinemas do passado, de antes da guerra. Julgo também que as imagens em preto e branco são mais realistas, se as compararmos com as coloridas que vemos o dia inteiro na televisão.
- Como julga a revolta dos jovens?
- La haine não é um filme sobre a revolta das novas gerações, mas sobre o ódio. E quando digo ódio, refiro-me àquela situação de nervosismo contido dos jovens que vivem na periferia. Ela desemboca sempre na violência que é, no fundo, uma violência contra si mesmo.
- Como qualifica seu filme, de drama ou documentário?
- Acho natural que o cinema tenha uma dimensão social. Mas a dimensão social nunca impediu que um filme fosse interessante e atraente. Para que La haine se transformasse num filme atraente, apesar de seu conteúdo social, procurei socorro na música, no rap e no funk. Por isto o trabalho dos atores é ritmado, diria até que é baseado no ritmo natural da linguagem dos gestos.
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Embora seja um filme ambientado nos subúrbios de Paris, segundo Any Bourrier, "Seus personagens são os mesmos que se podem encontrar numa cidade brasileira, americana ou europeia.", pois, "Desde o primeiro plano, entra-se de cheio no problema universal da divisão entre cidade e a periferia, entre adultos e jovens, entre rejeitados e representantes da ordem social". E Any complementa: "O filme de Kassovitz constata, denuncia, agride. Demonstra que os jovens sem rumo sentem ódio porque é tudo o que lhes resta num mundo cruel e sem perspectiva. Apesar de ficcional, La haine é uma imagem realista do abismo social existente entre a ordem (a polícia) e a desordem criativa e dinâmica da juventude suburbana.".
Feito o destaque de alguns trechos da excelente reportagem de Any Bourrier, faço a seguinte indagação. Vocês perceberam que, diferentemente do que sempre fiz, não informei onde encontrei o texto reproduzido na postagem nem quando ele foi publicado? Por que fiz isso? Para oferecer-lhes a oportunidade de confirmar a veracidade das seguintes palavras de Moshe Feldenkrais: "Pense nisso: O que fazemos conosco agora é o mais importante para o amanhã. Se não fizermos nada para mudar nossa atitude e o nosso modo de atuar, amanhã parecerá ontem, exceto pela data".
Publicado na edição de 02 de julho de 1995 do Jornal do Brasil, creio que, excetuando aquelas que tenham conhecimento do referido filme, para as demais pessoas a reportagem de Any Bourrier passe facilmente por algo publicado nos tempos atuais, pois, considerando que de lá para cá pouco ou nada mudou na atitude da maioria dos integrantes desta insana sociedade, hoje parece ontem, exceto pela data. Será que "um soco no estômago" pode ajudar-nos a interpretar corretamente o problema da violência urbana que a cada dia fica mais apavorante?

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Falta a criança de três anos

Após Um aprendizado casual, onde é oferecida uma oportunidade para aprender algo com um humilde cavalariço, este blog apresenta um trecho de um artigo que oferece mais uma oportunidade de aprendizado com seres desconsiderados pela maioria (sempre ela!) como capazes de ensinar alguma coisa. Um artigo publicado na edição de 12 de março de 2006 do jornal O Globo, na coluna do Veríssimo, com o título Na cara. Ou seja, mais uma vez, diferentemente do que costumo fazer, não dei à postagem o mesmo título dado ao texto que a provocou, e explico.
A cena de um filme citada em tal artigo aparece em outros artigos de Luis Fernando Veríssimo sob diferentes títulos e já li quatro onde ela é citada. O primeiro em 04 de março de 1999 e o último em 08 de maio de 2014. O título da postagem e as duas frases finais do texto nela apresentado foram copiados do artigo Falta a criança de três anos publicado na edição de 04 de março de 1999 do jornal O Globo.
Na cara
Há uma cena de um filme dos irmãos Marx em que Groucho, um general postando-se à frente de um mapa para explicá-lo aos seus comandados, diz:
- Uma criança de três anos entenderia isto.
E depois de algum tempo examinando o mapa:
- Tragam uma criança de três anos!
A criança de três anos não representa apenas o óbvio, ou o senso comum. Representa um olhar inocente no sentido de ser livre de ideias feitas, ilusões e vícios de pensamento. Não é fácil pensar como a proverbial criança de três anos – há o risco de se confundir simplismo com sabedoria. Mas é sempre saudável pensar em assuntos complexos tentando separar o que é preconceito e vontade do que está na cara.
A criança de três anos não é pró ou anti nada. A criança de três anos só vê o que está na cara, e acha estranho que ninguém mais veja.
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"A criança de três anos não é pró ou anti nada. A criança de três anos só vê o que está na cara, e acha estranho que ninguém mais veja.", diz Luis Fernando Verissimo em um artigo intitulado Falta a criança de três anos. Um artigo inspirado em uma cena de um filme no qual, diante do não entendimento demonstrado por seus comandados, um general ordena que uma criança de três anos seja trazida até eles, pois, segundo ele, tal criança entenderia o que eles não conseguem entender.
Ou seja, há coisas que só uma criança de três anos consegue enxergar ou que ela precisa enxergar antes para que só então os adultos se disponham a ver, pois, corrigindo um antigo ditado que diz que - é preciso ver para crer -, há quem diga que - é preciso crer para ver. Coisas como a nudez de um vaidoso rei enxergada primeiramente por uma criança como nos fala Hans Christian Andersen (1805 - 1875) em seu conhecido conto intitulado A Roupa Nova do Rei. Vocês conhecem esse conto? Vocês sabem qual era a idade daquela criança? Pelo que consigo lembrar, no conto não é revelada a idade, mas, pelo que consigo supor, considerando o que foi dito até aqui, ela deveria ter três anos.
Por que faço tal suposição? Porque, com essa idade, como diz Luis Fernando Veríssimo, a criança só vê o que está na cara, pois aquilo que, com o passar dos anos ela será levada a ver, não com seus próprios olhos, e sim pela nefasta atuação de uma legião composta de indivíduos classificados como formadores de opinião, ela ainda não vê com essa idade. Vocês concordam que os dois vigaristas, que se fizeram passar por alfaiates para encherem-se de dinheiro confeccionando (sic) uma roupa invisível para um vaidoso rei, nada mais eram do que formadores de opinião que fazem pessoas incautas "ver" coisas que não existem? Pois é, crianças de três anos ainda não se deixam enganar por formadores de opinião; ainda conseguem ver o que está na cara.
Sim, falta a criança de três anos! Falta na cena do filme, e o que é pior, falta nesta civilização (sic) onde as crianças perderam o direito de serem crianças, pois cada vez mais elas são criadas como se já tivessem nascido adultas. A postagem publicada neste blog em 13 de maio de 2011 é intitulada Era uma vez uma infância.
É muito triste sobreviver em um mundo onde não existe mais infância; onde não se permite crianças terem três anos. É desolador sobreviver em uma civilização (sic) na qual, consciente ou inconscientemente eleito pela maioria de seus integrantes, o deus mercado reina de forma absoluta. Uma civilização onde permitir crianças perderem tempo com essa bobagem denominada infância, em vez de ganharem tempo preparando-se para tornarem-se vencedores na insana competição que precisarão travar no tal do mercado de trabalho, é considerada uma demonstração de estar fora da realidade. Uma triste realidade que a maioria aceita cada vez mais como algo inevitável. Uma aceitação que me faz lembrar (mais uma vez) a seguinte afirmação de Einstein: "Existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo."
E ao falar em crianças e em deus mercado, lembro de um texto que li, há alguns anos, em uma coluna de Paulo Coelho publicada no jornal Extra em uma data que não anotei sob o título A irmã mais velha pergunta. Texto encontrável em extra.globo.com usando o título como argumento de busca.
A irmã mais velha pergunta
Quando seu irmão nasceu, Sa-chi Gabriel insistia com os pais para ficar sozinha com o bebê. Temendo que, como muitas crianças de 4 anos, estivesse enciumada e quisesse maltratá-lo, eles não deixaram.
Mas Sa-chi não dava mostra de ciúmes. E como sempre tratava o bebê com carinho, os pais resolveram fazer um teste. Deixaram Sa-chi com o recém-nascido, e ficaram observando seu comportamento através da porta semi-aberta.
Encantada por ter seu desejo satisfeito, a pequena Sa-chi aproximou-se do berço na ponta dos pés, curvou-se até o bebê e disse: "Me diz como Deus é! Eu já estou esquecendo!"
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Aos quatro anos uma criança já está esquecendo como Deus é! Será que, por si só, esse esquecimento explica a insana forma de agir da autodenominada espécie inteligente do universo? Creio que não, pois a coisa não para por aí, e eu explico. Ao esquecer como Deus é, em conformidade com o que afirmou Voltaire (1694 – 1778) – Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo - a criatura parte para a criação de novos deuses, dentre eles um já citado alguns parágrafos acima - o deus mercado. Um deus cultuado pela maioria dos adultos. Um deus cujo culto exige o sacrifício das crianças. Ou seja, um deus cuja existência, por si só, explica a inexistência da criança de três anos; a falta da criança de três anos. Vocês sentem falta da criança de três anos?

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Um aprendizado casual

Após Um encontro casual, mantendo a casualidade, este blog apresenta uma postagem intitulada Um aprendizado casual. Elaborada a partir de uma história encontrada, casualmente, em um livro intitulado O Mercador e o Papagaio – Histórias orientais como ferramentas em psicoterapia, de Nossrat Peseschkian, diferentemente do que costumo fazer, não dei à postagem o mesmo título dado ao texto que a provocou, e explico.
Apresentada sob o título Não tudo ao mesmo tempo, o autor do livro usa a referida fábula oriental para "demonstrar os problemas da educação e da terapia: ou se dá muito pouco, ou se dá demasiado de uma só vez. Em ambos os casos, o desenvolvimento do homem não é levado em consideração." Considerando que a história possibilita inúmeras interpretações, nesta postagem, uso-a para demonstrar a relação existente entre aprender e ensinar. Aprender e Ensinar, eis o outro título cogitado para esta postagem.
Não tudo ao mesmo tempo
O mulá, um pregador, entrou num determinado recinto para dar um sermão. A sala estava vazia, exceto pela presença de um jovem cavalariço, sentado na primeira fila. O mulá, cogitando se devia falar ou não, finalmente disse ao cocheiro: "Você é a única pessoa aqui. Acha que eu deveria falar, ou não?". O cavalariço respondeu-lhe: "Mestre, eu sou apenas um homem simples e não entendo dessas coisas. Mas, se eu entrasse nos estábulos e visse que todos os cavalos haviam fugido e apenas um restava, mesmo assim eu daria comida para ele."
O mulá tomou isso a peito e começou a pregar. Falou durante mais de duas horas. Depois disso, sentiu-se exultante e queria que a plateia confirmasse a grandeza do seu sermão. Ele perguntou: "Você gostou do meu sermão?". O cavalariço respondeu: "Já lhe disse que eu sou um homem simples e não entendo bem dessas coisas. Entretanto, se eu entrasse nos estábulos e descobrisse que todos os cavalos haviam fugido exceto um, eu daria de comer a ele, mas não lhe daria toda a ração que eu tivesse."
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"As velhas histórias orientais demonstram que nossos conflitos, problemas e dúvidas são tão velhos como a própria humanidade.", diz Maurício Knobel no prefácio escrito em março de 1992, época em que era professor titular de Psiquiatria na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, para do livro de Nossrat Peseschkian.
Nossos conflitos e problemas são tão velhos quanto à própria humanidade! Conflitos e problemas mantidos pela nossa persistência em interpretar problemas de forma equivocada. Pelo nosso desinteresse em aprender a interpretá-los de forma correta. Pela nossa estupidez em dividir a própria (ou seria imprópria?) humanidade em dois tipos de pessoas: as que veem a este mundo para ensinar e as que veem para aprender, ignorando que todas veem para aprender e para ensinar.
Minha interpretação da história selecionada para esta postagem é feita com a intenção de espalhar a ideia de contestar essa estúpida divisão. Divisão da qual resulta a dificuldade de pais aprenderem com filhos; professores aprenderem com alunos; chefes aprenderem com subordinados; enfim, de indivíduos que se considerem superiores aprenderem com aqueles por eles considerados inferiores.
"Um pregador, entrou num determinado recinto para dar um sermão", e ao encontrar "a sala vazia, exceto pela presença de um jovem cavalariço, sentado na primeira fila, cogitando se devia falar ou não, ele disse ao cocheiro: "Você é a única pessoa aqui. Acha que eu deveria falar, ou não?"
Ou seja, surpreendido pela ausência de uma grande plateia ávida por seus ensinamentos, um representante das pessoas que veem a este mundo para ensinar indaga a uma das que veem para aprender "se deveria falar, ou não". E aí, talvez mais surpreso ainda, o mestre ouve do aprendiz a seguinte resposta: "Mestre, eu sou apenas um homem simples e não entendo dessas coisas. Mas, se eu entrasse nos estábulos e visse que todos os cavalos haviam fugido e apenas um restava, mesmo assim eu daria comida para ele." Sinistro, não? Será que nessa interação alguma coisa foi ensinada e / ou aprendida? Se a resposta for afirmativa, quem vocês acham que ensinou e / ou quem vocês acham que aprendeu? Será que a realização do sermão, após o que lhe foi dito pelo cavalariço, demonstra que o mestre aprendeu algo com o aprendiz?
Então, dando ouvidos ao que disse o aprendiz, "O mestre tomou sua resposta a peito e começou a pregar. Falou durante mais de duas horas. Depois disso, sentiu-se exultante e queria que a plateia confirmasse a grandeza do seu sermão. Ele perguntou: "Você gostou do meu sermão?".
E ao fazer mais uma indagação, creio que o mestre tenha se deparado com mais uma surpresa proporcionada por mais uma resposta do aprendiz: "Já lhe disse que eu sou um homem simples e não entendo bem dessas coisas. Entretanto, se eu entrasse nos estábulos e descobrisse que todos os cavalos haviam fugido exceto um, eu daria de comer a ele, mas não lhe daria toda a ração que eu tivesse.". Sinistro, não? Será que nessa nova interação mais alguma coisa foi ensinada e / ou aprendida? Por quem?
Aprender e ensinar! Será que faz sentido dividir a humanidade em pessoas que veem a este mundo para ensinar e pessoas que veem para aprender; dividi-la em mestres e em aprendizes? Será que definir mestre como alguém que sempre ensina é algo que faz sentido? Guimarães Rosa acha que não. Afinal, segundo ele, "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende." Em outras palavras, e em conformidade com a história apresentada acima, mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente está aberto para aceitar um aprendizado casual. Um aprendizado casual oferecido até mesmo pela única pessoa presente em um evento em que um mestre esperava encontrar uma grande plateia.
Dito isto, será que faz sentido afirmar que aprender e ensinar são duas atribuições de todos os indivíduos que veem a este mundo? Duas coisas para as quais todos devem estar abertos?
Aprender e ensinar, eis duas coisas as quais dedica-se o mantenedor deste blog. Ensinar a partir do espalhamento de ideias aprendidas em textos e histórias interessantes como a selecionada para esta postagem. Aprender a partir de respostas dadas por quem leia as postagens, mesmo que, assim como na história contada acima, a quantidade de leitores deste blog seja pequena.
E ao falar em quantidades pequenas, repito aqui uma afirmação atribuída à diretora Sandra Werneck em uma reportagem de Fabiano Ristow, publicada na edição de 23 de abril de 2017, do jornal O Globo. "Não penso mais no mercado de cinema. Depois de tantos filmes, agora só farei o que me interessa, nem que apenas três pessoas vejam".
Uma afirmação interessante que uso como base para dizer o seguinte. Considerando que eu nunca pensei em mercado algum, desde o início deste blog só faço o que considero que interesse, não só a mim, mas também a todos que ainda almejem uma vida melhor. O que eu faço? Como é dito no título do blog, "Espalho ideias que ajudem a interpretar a vida e provoquem ações para torná-la cada vez melhor", nem que apenas três pessoas leiam as postagens. E torço para que aqueles que as leiam respondam com um comentário ou uma resposta por e-mail. Afinal, repetindo o que é dito dois parágrafos acima, "aprender e ensinar, são duas coisas as quais dedica-se o mantenedor deste blog." E aprendizagens casuais serão sempre muito bem aceitas. Compreendido?

terça-feira, 25 de julho de 2017

Um encontro casual

"Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.".
(Caio Graco [154 a.C – 121 a.C])
Inspirado pelo último parágrafo do artigo de Betty Milan apresentado na postagem anterior e pela lembrança de mais uma data comemorativa, neste Dia Nacional do Escritor a ideia escolhida para ser espalhada por este blog vem de uma história publicada na edição de 11 de novembro de 2001 do jornal O Globo em uma coluna assinada por Paulo Coelho. Intitulada Um encontro casual ela é apresentada ao lado de outra e ambas sob o título Duas histórias que poderiam ser reais.
Um encontro casual
O escritor Christopher D’Antonio caminhava deprimido pela pista de corrida do East River, na cidade de Nova York. Na realidade, sua depressão tinha atingido tal intensidade, que planejava cometer suicídio naquela mesma tarde.
Sua impressão era de que a atividade de escritor – à qual vinha se dedicando há décadas – não tinha nenhum valor real, e não fazia muita diferença. O que ele havia realmente deixado de concreto para a humanidade? Seu trabalho não havia mudado o mundo como ele sonhava.
D’Antonio resolveu passar do pensamento à ação. Subiu na grade que separa a pista das águas do East River, e ali permaneceu, com os olhos fixos na água escura, procurando reunir coragem para seu último ato.
De repente, uma voz feminina – cheia de alegria e entusiasmo – o interrompeu.
- Com licença. O senhor é o escritor D’Antonio?
Ele, com indiferença, acenou a cabeça.
- Espero não incomodá-lo – disse a moça. – Talvez esteja interrompendo um momento importante de reflexão.
- Está. O que a senhora deseja?
- Não vou tomar o seu tempo, pois sei que tem muita coisa importante para fazer. Mas simplesmente precisava lhe dizer como seus livros foram importantes na minha vida! Eles me ajudaram de uma forma incrível, e eu só queria agradecer.
D’Antonio desceu da cerca, apertou a mão da moça, e, com os olhos fixos em seus olhos, respondeu:
- Tenho que voltar para casa agora; realmente ainda há muito o que fazer, e não posso ficar aqui por mais tempo. Mas, na verdade, sou eu quem lhe diz obrigado.
Seu trabalho tinha ajudado aquela mulher; era uma maneira de mudar o mundo.
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Que história fértil para indagações e reflexões! Indagações que podem começar pelo título. Será que o referido encontro foi casual? Aliás, indo mais além, será que existem encontros casuais? E para responder tais indagações, neste momento, eu recorro à seguinte afirmação de Joseph Klimber: "A vida é uma caixinha de surpresas.". E explico.
Após ter decidido publicar neste uma postagem intitulada Um encontro casual, na última sexta-feira passada, recebi, de uma ex-colega de trabalho que há muito tempo não encontro, um e-mail alusivo ao Dia Internacional do Trabalho composto, simplesmente, pela seguinte mensagem: "Não encontramos ninguém por acaso! Atravessamos o caminho uns dos outros por um motivo." É ou não é uma coincidência? O que vocês acham? E sobre a referida mensagem? O que vocês têm a dizer? Dá o que pensar, não?
Após as reflexões provocadas pelo título da história, passemos a algumas provocadas pela atitude do escritor nela citado. Deprimido pelas impressões de que a atividade de escritor não tinha valor real e de que seu trabalho não havia mudado o mundo como ele sonhava, D’Antonio planejara cometer suicídio naquela mesma tarde.
A leitura das impressões de D’Antonio, imediatamente, fez-me lembrar um conselho dado por Thomas Merton, o famoso místico cristão, numa carta enviada para um amigo. Não fique na dependência de resultados, eis o conselho. Com a intenção de elucidá-lo, segue o trecho do livro intitulado Liderança para Tempos de Incerteza – A Descoberta de um Novo Caminho de autoria de Margaret J. Wheatley onde encontrei o conselho.
"Não fique na dependência de resultados... você pode ter que encarar o fato de que seu trabalho será aparentemente inútil e sem resultados, ou que os resultados serão contrários aos esperados. Acostumando-se a essa idéia, você começa a se concentrar não nos resultados, mas no valor, na retidão, na verdade do próprio trabalho..."
Considerando que elas têm tudo a ver com o conselho de "não ficar na dependência de resultados", seguem duas frases encontradas no mesmo livro e na mesma página. A primeira, atribuída a Vaclav Havel, diz que "Não é a convicção de que alguma coisa vai se desenrolar bem, mas a certeza de que essa coisa faz sentido, seja como for que se desenrole". A segunda, feita pela autora do livro, diz que "Escolhemos nossas ações porque parecem certas, mesmo que não consigam mudar as coisas." Não ficar na dependência de resultados é o título da postagem publicada em 9 de janeiro de 2012 neste blog.
Será que se o amigo a quem Thomas Merton enviou a carta com o conselho de "Não ficar na dependência de resultados" fosse D’Antonio, sua depressão teria atingido a intensidade citada na história? No meu entender, não. E no de vocês?
Que bela história! Uma bela história com um final indagativo e reflexivo, como mostram seus quatro últimos parágrafos reproduzidos abaixo.
- Não vou tomar o seu tempo, pois sei que tem muita coisa importante para fazer. Mas simplesmente precisava lhe dizer como seus livros foram importantes na minha vida! Eles me ajudaram de uma forma incrível, e eu só queria agradecer.
D’Antonio desceu da cerca, apertou a mão da moça, e, com os olhos fixos em seus olhos, respondeu:
- Tenho que voltar para casa agora; realmente ainda há muito o que fazer, e não posso ficar aqui por mais tempo. Mas, na verdade, sou eu quem lhe diz obrigado.
Seu trabalho tinha ajudado aquela mulher; era uma maneira de mudar o mundo.
"Mas, na verdade, sou eu quem lhe diz obrigado.", diz o escritor à leitora, com os olhos fixos em seus olhos, quase no fim da história. Uma história com um final instigante! Afinal, quem deve ser grato a quem? Quem ensinou algo a alguém? E para responder a estas indagações, recorro a uma frase de Margaret J. Wheatley encontrada em seu excelente livro. "A vida nos ensina uma lição básica: nenhum ser vivo vive sozinho. Ela só se organiza em sistemas de interdependência.". Em sistemas de interdependência que fazem com que passemos a vida aprendendo uns com os outros e ensinando uns aos outros.
Sendo assim, que tal procurarmos passar pela vida ensinando aos outros alguma coisa que preste? Tanto em encontros programados quanto em encontros casuais, se é que estes existem, não é mesmo? E agradecendo a todos aqueles com quem aprendermos alguma coisa. De preferência com os olhos fixos em seus olhos, como fez o escritor ao agradecer àquela leitora. Uma leitora que grata pela ajuda que dele julgava ter recebido por meio de seus livros, naquele momento o salvara de um trágico e triste fim.
"Amai-vos uns aos outros", eis a recomendação feita por uma frase de um antigo mestre que desta dimensão partiu há 1.984 anos. "Ajudai-vos uns aos outros", eis a recomendação feita por esta paráfrase inspirada por tudo o que é dito nesta postagem.