terça-feira, 18 de abril de 2017

Dias melhores virão (II)

Continuação de terça-feira
É dessa crítica que nasceu o conceito de interser?
O termo interser é mais forte do que o uso do termo interconectividade ou interdependência. Ele significa que sua existência está ligada à minha, que de alguma forma você é uma parte minha, e vice-versa. Então qualquer coisa que aconteça a você, à pessoa ao lado, à floresta tropical, aos rios e aos oceanos também estará acontecendo a mim. Não podemos escapar das consequências.
Portanto, se faço algo ruim, se rompo com o círculo da vida, isso retornará para mim. Isso significa que tudo o que está acontecendo do lado de fora também está acontecendo dentro de nós. Nesse sentido podemos entender que há mensagens e revelações direcionadas a nós o tempo todo, já que o mundo é um espelho. Um exemplo muito simples e corriqueiro: quando dizemos que fulano fala muito, isso cria uma resposta emocional em nós. "O que ela está revelando sobre mim? Será que eu falo demais ou não falo o suficiente? Será que não deixo os outros falarem?". Essa compreensão só é possível porque não estamos separados do mundo ao redor.
De que forma esse entendimento modifica nosso comportamento?
Mudam-se as percepções de egoísmo e interesse próprio, pois, se você está ciente de que seus atos de gentileza e generosidade de alguma forma voltarão para você, isso o torna mais corajoso, mais aberto. Não se trata apenas de ensinamento espiritual. É algo que nos faz sentir muito bem. Temos um confiável sistema de orientação interno que nos leva na direção de ações que irão beneficiar a outros seres e a nós mesmos. Afinal, nosso bem-estar depende do bem-estar de todos. Riqueza é se sentir seguro e em paz no mundo, e não supostamente protegido atrás de muros.
Por que você afirma ser tão importante neutralizarmos a sensação de impotência e ceticismo em relação a um futuro melhor e voltarmos a acreditar no poder dos pequenos gestos?
Na história da separação ninguém pode mudar realmente o mundo a não ser que tenha muito dinheiro e poder: governos, exércitos, mídias, corporações. De acordo com esse modo de pensar, a maioria das pessoas não tem importância. Mas esse jeito de enxergar as coisas é uma forma de separação que passa ao largo da compreensão do conceito de interser, segundo o qual toda ação é significativa, inclusive de maneiras que muitas vezes fogem à nossa compreensão racional. Logo, a sensação de impotência e ceticismo fazem parte desse velho paradigma. Podemos achar que nossas ações são insignificantes e, portanto, desprovidas de poder para transformar o mundo.
Mas, na verdade, nossas escolhas, por mais singelas que sejam, são nossas orações, nossos atestados. Um jeito de afirmar: "É esse o mundo que eu desejo para mim e para todos". Como negar a importância de uma avó amorosa em algum lugar do mundo que está transmitindo seu afeto a seu neto e, consequentemente, ao neto dele, e assim por diante. Daqui a 500 anos, o mundo pode ser um lugar melhor por causa dela. Quem vai ter coragem de dizer que não?
"Como negar a importância de uma avó amorosa que transmite afeto ao neto? (...) Daqui a 500 anos o mundo pode ser um lugar melhor por causa dela"
Se a mudança começa em cada um de nós, o que seria uma postura de vida capaz de nutrir um futuro desejável?
Vale muito a pena passar bastante tempo perto de pessoas realmente generosas e benevolentes. Essa é a melhor maneira de aprendermos pelo exemplo e nos contagiarmos. Por outro lado, temos que nos desvencilhar do hábito de sermos boas pessoas. Se você insistir nisso, fará apenas o mínimo necessário para se sentir como tal. E, na prática, nada será suficiente para você se sentir assim. Portanto, trata-se de uma armadilha. Em vez disso, tente criar o que é significativo e belo para você e se dedique a isso. Encontre o que você ama fazer e se coloque a serviço disso. Esse caminho se mostrará prazeroso, divertido, inspirador, enfim, o fará se sentir vivo. Estando verdadeiramente feliz, você fará muito mais pelo mundo.
"Encontre o que você ama fazer e se coloque a serviço disso. (...) Estando verdadeiramente feliz, você fará muito mais pelo mundo"
Termina na próxima terça-feira

terça-feira, 11 de abril de 2017

Dias melhores virão (I)

Quando eu digo que sem "coincidir palavras e atitudes" todo o resto pode ser abandonado me baseio inclusive na PNL – Programação Neuro Linguística que diz: O que uma pessoa acredita, o que pensa ser possível ou impossível, determina o que pode, ou não, fazer. Há uma velha frase que diz: "Quer você acredite que pode fazer uma coisa, ou acredite que não pode, você está certo". De uma certa forma é verdade, pois quando você não acredita que possa fazer alguma coisa, está mandando mensagens coerentes ao seu sistema nervoso, que limitam ou eliminam sua capacidade de conseguir aquele mesmo resultado. Se, por outro lado, estiver consistentemente enviando congruentes mensagens ao seu sistema nervoso que dizem que pode fazer alguma coisa, ele então avisa seu cérebro para produzir o resultado que deseja e isso abre a possibilidade para que aconteça.
O parágrafo acima foi extraído do livro Poder Sem Limites, de Anthony Robbins. Por que resolvi usá-lo para iniciar esta postagem? Porque, acreditar, ou não, que Dias melhores virão é algo que, no meu entender, tem tudo a ver com o que nele é dito. Feito este preâmbulo, segue a primeira de três partes nas quais dividi uma reportagem de Raphaela de Campos Mello, intitulada Dias melhores virão, publicada na edição de março de 2017 da revista Bons Fluidos.
Dias melhores virão
Enquanto muitos apontam para o apocalipse, o filósofo e escritor Charles Eisenstein acredita na emergência de um mundo onde o senso de comunidade prevalece sobre a cisão entre os seres.
Violência, intolerância, desequilíbrio ambiental, crise econômica, social e política. O mundo não vai nada bem. Como efeito colateral, a perspectiva do colapso em escala planetária cava dentro de nós o abismo da incerteza – terreno fértil para o medo. "O que será do amanhã?", todos se perguntam. Pois há quem vislumbre nessa turbulência o raiar de tempos melhores. É por isso que o primeiro livro traduzido para o português do filósofo e escritor americano Charles Eisenstein ganhou o auspicioso título de O Mundo Mais Bonito Que Nossos Corações Sabem Ser Possível (ed. Palas Athena, R$ 52,00, 328 págs.).
Ativista da economia da dádiva, baseada na partilha da riqueza desvinculada do crescimento econômico, Eisenstein acredita na capacidade criadora de cada indivíduo para transformar todas as esferas da atividade humana. Mas, para chegarmos a esse ponto, ele enfatiza, precisamos deixar para trás o velho paradigma calcado no individualismo e no materialismo. "O mundo que conhecemos não está funcionando mais. Temos que urgentemente resgatar o sentido de comunidade", ele propôs à plateia do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, onde ministrou no final de novembro a palestra Repensar o Mundo: As Transformações Econômicas, Políticas e Pessoais. BONS FLUIDOS acompanhou a passagem do pensador pelo Brasil e depois conversou com ele por Skype. A seguir, os porquês do otimismo dele.
Nesse momento de crise ecológica, social, política e econômica, a insegurança e o medo crescem entre as pessoas. Como deveríamos reagir a tudo isso que nos aflige?
Quando aquilo que conhecemos começa a desmoronar, somos incitados a sentir culpa e raiva e, mais que isso, a encontrar inimigos. É importante recusar esses convites. Com quem quer que estejamos interagindo devemos fazer o esforço de indagar: "Como é estar na pele dessa pessoa? Como é estar na pele do meu oponente político? Qual é a história dele? Se eu estivesse no seu lugar me comportaria da mesma maneira?". Devemos praticar esse exercício até mesmo com as pessoas que consideramos as mais malvadas. Se compreendermos isso, estaremos vivendo na realidade – na qual estamos todos interligados – e não numa projeção de separação criada por nós e que consideramos real.
Você enxerga uma transição entre um mundo em franco colapso e o nascimento de uma nova realidade. Afinal, o que exatamente estamos deixando para trás e o que estamos semeando para colher adiante?
Estamos deixando para trás o que chamo de "história da separação": separação entre homem e natureza, entre os seres humanos, entre indivíduo e comunidade. É a ideologia da separação que está destruindo o planeta e a sociedade, que está gerando todas as crises que enfrentamos atualmente, porque parte desse paradigma está ancorado na competição. Claro que certa dose de competitividade é natural, mas atingimos uma escala excessiva e artificial gerada pelo sistema econômico vigente que nos faz sentir apartados uns dos outros.
A verdade é que essa crise não irá desaparecer tão cedo. Muito pelo contrário, ela ficará cada vez pior. Tal cenário só poderá ser transformado quando o que consideramos "normal" entrar em colapso. Daí então surgirá espaço para o novo. O mundo que conhecemos não está funcionando mais. Temos que urgentemente resgatar o sentido de comunidade. E lembrar que a todo momento podemos fazer escolhas e decidir que futuro queremos ajudar a construir.
"Estamos deixando para trás uma história de separação: entre o homem e a natureza, entre os seres humanos e entre o indivíduo e a comunidade"
Por que nos sentimos tão distantes uns dos outros se a tecnologia está aí para conectar pessoas e ideias?
A tecnologia supre apenas parte da necessidade humana de conexão. E leva a alguns paradoxos. Por exemplo, quando estamos face a face com alguém, é custoso chamar essa pessoa de idiota e mandá-la para o inferno. Mas na internet as pessoas fazem isso o tempo todo justamente porque não se trata de uma conexão real. A tecnologia cumpre o importante papel de aproximar as pessoas ao redor do mundo, sem dúvida, mas, se ela se torna o único modo de contato, os indivíduos se tornam solitários, pois sua necessidade de obter outros tipos de ligação não está sendo suprida.
Nos Estados Unidos, as pessoas passam a maior parte do tempo dentro de suas casas, plugadas em suas TVs, computadores e videogames, e o mundo lá fora é um mundo de estranhos, desconfortável. Mesmo a própria vizinhança. Só que em um mundo como esse não há comunidade. Seres humanos precisam sentir que são conhecidos por seus pares, e vice-versa – eis uma necessidade emocional profunda. Quando estão na rua precisam sentir como se estivessem em sua própria casa. Temos que voltar a nos sentir íntimos das pessoas e da natureza.
Pode falar mais sobre esse resgate?
Quando toda pessoa é um estranho, e também toda árvore, toda planta, todo animal; quando obtemos tudo de longe – nossa água vem de canos; nossa comida, de fábricas distantes; nosso entretenimento e nossas amizades, da internet -, nunca nos sentimos em casa. Parece que sempre, independentemente de onde estamos, vivemos algo fake. E a verdade é que temos uma profunda necessidade de recobrar essas conexões perdidas. O que nos foi dito sobre quem somos é que somos seres separados, indivíduos em um mundo de outros; que a nossa felicidade, o nosso bem-estar e até mesmo a nossa existência não dependem do mundo à nossa volta; que, enquanto tivermos dinheiro, segurança e controle suficientes, ficaremos bem. Mas tudo isso é uma grande mentira.
Continua na próxima terça-feira

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Algumas passagens marcantes do documentário "O Começo da Vida"

Cinema é a maior diversão, mas pode ser convite à reflexão. Eis o título da postagem publicada em 10 de agosto de 2011. "Concordando com 'Sir' Ben Kingsley, o eterno Gandhi do cinema, meus filmes favoritos são aqueles que toquem o coração e falem sobre a condição humana. Filmes que contribuam para nos tornar pessoas superiores em termos espirituais, éticos e morais, e não apenas em termos hierárquicos e financeiros. Tenho uma definição diferente para efeitos especiais. Em minha opinião, efeitos especiais são aqueles cujo efeito seja a transformação de pessoas comuns em seres humanos especiais.". Eis o texto que coloquei no espaço a ser preenchido pelo mantenedor do blog com aqueles que sejam seus filmes favoritos.
Dito isto, seguem as passagens do documentário O Começo da Vida que, por terem me tocado o coração, considero marcantes. A ordem de apresentação é a mesma em que elas nele são exibidas. Obviamente, cada pessoa que assistir o documentário descobrirá suas próprias passagens marcantes. Para quem quiser, segue o endereço onde o assisti: https://www.youtube.com/watch?v=kQT-7AaphQk.
"Para os bebês, no nascimento e nos primeiros anos de vida, o cérebro faz ligações entre os neurônios numa velocidade impressionante. A cada segundo, o cérebro faz de setecentas a mil conexões novas.", diz Jack P. Shonkoff, M.D., diretor do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard. "No cérebro dos bebês há muitas rotas e conexões possíveis entre um neurônio e outro. Durante o desenvolvimento, as rotas que são muito utilizadas são mantidas e reforçadas e as que são pouco utilizadas, pouco a pouco, vão desaparecendo.", diz Alison Gopnik, Ph.D., psicóloga e pesquisadora da Universidade da Califórnia. "O afeto é a fita isolante das ligações entre os neurônios. Uma vez que você tenha a ligação entre os neurônios, vem o afeto e faz com que aquela ligação seja tão forte que ela nunca mais seja desfeita.", diz Flávio Cunha, Ph.D., economista da Universidade de Rice.
"A mãe é a principal responsável na construção do capital humano investido no filho. E esse amor materno é realmente uma parte importante da economia e que não é totalmente reconhecida pela nossa sociedade.", diz James J. Heckman, Ph.D., prêmio Nobel e professor de Economia da Universidade de Chicago.
"As pessoas perguntam pra mim – Vem cá! Quando é que você volta... a trabalhar?! É como se você estivesse sem fazer... nada... esse tempo todo, né! Mas você cuidar dos filhos, você dedicar um tempo... considerável... da sua vida para cuidar dos seus filhos é considerado nada (!). Cuidar dos seus filhos significa que você tá cuidando de pessoas que vão ser futuros cidadãos,... se o sujeito vai votar,... se o sujeito vai botar fogo no índio ou não vai botar fogo no índio. Você tá... você tá... simplesmente trazendo gente,... tá formando a humanidade, cara (!),... e isso é nada (!), é absolutamente nada (!) para a sociedade!", exclama uma mãe entrevistada.
"Esse mundo investe em satélites, enfim, em diversas áreas para conhecer novos planetas e ir pra Marte, pra Lua, pra Urano. A gente não vai investir na condição humana, na humanidade que está nascendo?! Como é que a gente pode pensar num mundo de paz, de colaboração, de bem-aventurança onde o começo da vida não é levado em conta?!", indaga Vera Cordeiro, M.D., física e fundadora da Fundação Saúde da Criança.
"Uma das necessidades vitais da criança é o enraizamento. Ela se sentir pertencente à vida, a uma família, a uma história, a um chão. O avô, a avó, geralmente são os maiores contadores de histórias. Ouvir essas histórias vai ampliando as margens da vida da criança e o seu enraizamento, o seu pertencimento.", diz Severino Antônio, Ph.D., educador e escritor.
"Tem um provérbio africano que diz que é necessária uma vila para criar uma criança. A criança chega com tanta energia, com tanta criatividade que a mãe só não dá conta. Isso pro começo da vida. É necessário o pai, a mãe, os avós, os vizinhos, a comunidade pra que essa criança se desenvolva.", diz Vera Cordeiro, M.D., física e fundadora da Fundação Saúde da Criança.
"Uma das grandes solidões do mundo contemporâneo é a perda de comunidade. Perdemos esse sentido comunitário, a criança precisa disso. Ela precisa de crianças, ela precisa de pessoas, não só quando falta alguém da família, mas como um acréscimo; ela precisa dessa ampliação. Isso muda tudo. Cada criança pertence à comunidade, pertence, na verdade mesmo, pertence à humanidade inteira.", diz Severino Antônio, Ph.D., educador e escritor.
"Eu tomo conta do meu irmão e da minha irmã, sozinha, diz uma menina. Uma menina que diante da pergunta - O que você estava fazendo em cima do telhado naquele dia? -, responde assim: Naquele dia estava chovendo. A telha caiu, fez uma goteira e eu estava tentando consertar. Uma menina que ao responder a pergunta - Qual o seu maior sonho? – proporciona uma das passagens mais tristes do documentário. "Não tenho sonhos.", responde ela. É muito triste ouvir uma criança declarar que não tem sonhos. Que mundo é esse que possibilita algo tão sinistro? – pergunto eu.
"Crianças não são criadas pelo governo, mas por pessoas; não são criadas por instituições, mas por indivíduos. No final, grande parte disso é como os adultos mais importantes na vida das crianças estão provendo o que elas precisam. Mas o problema é quando a sociedade critica os adultos que não dão às crianças o que elas precisam ou quer puni-los ou não quer ajudá-los. Posso ajudar as crianças, mas não vou ajudar os adultos. A ciência diz que se não se pode ajudar as crianças sem ajudar os adultos que cuidam delas. Crianças não são ajudadas por programas, mas por pessoas. As consequências de não dar às crianças o que precisam custam muito para a sociedade. E mesmo para as pessoas que dizem - eu cuido bem dos meus filhos, eu dou duro, as coisas não vêem assim tão fácil, mas eu estou cuidando bem deles, não é justo me pedir para me responsabilizar pelo que os outros não fazem pelos filhos, eu estou preocupado com os meus -, a resposta é: a vida dos seus filhos quando crescerem será mais fácil ou difícil com base em quantas pessoas da idade deles estão contribuindo ou na verdade são um peso para a sociedade.", diz Jack P. Shonkoff, M. D., diretor do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard.
"Eu não acredito em criança negligenciada pela mãe, eu acredito em criança negligenciada pelo ambiente. Se uma mãe negligencia a criança a ponto de ela ficar sem saída, cadê as outras pessoas? Uma criança não é só filha de uma mãe, ela é neta de alguém, ela é sobrinha de alguém, ela é vizinha de alguém, ela é cidadã de algum lugar, ela tem uma nacionalidade. Quer dizer, a gente nunca pode pensar na negligência só um pra um.", diz Vera Iaconelli, Ph.D., psicóloga e diretora do Instituto GERAR.
"Uma vez Albert Einstein foi entrevistado por um jornalista e o jornalista perguntou – Professor Einstein, se você tivesse apenas uma pergunta a fazer sobre o Universo, qual seria ela? Ele esperava uma pergunta muito sofisticada e Einstein respondeu que a pergunta seria – O Universo é amigável?", diz Stanislav Grof, M.D., psiquiatra do Instituto de Estudos Integrais da Califórnia.
"Nos Estados Unidos fizemos um estudo que mostra o benefício de um dólar investido nos primeiros anos na vida de uma criança. Quais são os efeitos em termos de redução de crimes, na redução de custos de encarceramento. Descobrimos que para cada dólar investido retornavam por volta de sete dólares. A margem de rendimento é basicamente quanto se ganha por ano para cada dólar investido. Uma caderneta de poupança pode ganhar três, quatro, cinco por cento ao ano. O que descobrimos foi algo entre sete e dez por cento, de rendimento ao ano, o que é um rendimento muito alto. Bem mais do que a nossa bolsa de valores. É dar às pessoas a capacidade de serem autônomas, de lidarem com os desafios da vida, ao mesmo tempo tornando-as mais produtivas e assim reduzindo a desigualdade social.", diz James J. Heckman, Ph.D., prêmio Nobel e professor de Economia da Universidade de Chicago.
"Então, quando ajudamos a criança e quando investimos... na primeira infância estamos investindo... na sociedade como um todo. Na verdade,... se mudarmos o começo da história mudamos a história toda... pra melhor.", diz Raffi Cavoukian, fundador do Centro para Honra das Crianças, encerrando o documentário.
E para encerrar esta não curta postagem recorro a uma indagação: Será que a concretização da esperança de que dias melhores virão depende da nossa participação para "mudarmos a história toda... pra melhor"? Em uma antiga e belíssima canção intitulada Depende de nós, Ivan Lins responderia afirmativamente à indagação. E vocês, como a responderão?

quinta-feira, 30 de março de 2017

Reflexões provocadas por "A criança não quer pais perfeitos, ela quer pais que estejam presentes"

"A vida é uma caixinha de surpresas.", diz Joseph Klimber. Uma caixinha que se abriu para a cineasta Estela Renner durante suas pesquisas para a produção do documentário O Começo da Vida. "Convidada para dirigir um filme sobre a primeira infância, Estela viajou e entrevistou pessoas de nove países, incluindo gente comum e celebridades. Dessa diversidade extraiu lições sobre o peso do amor, das relações em família". Lições proporcionadas pela abertura da caixinha de surpresas e que a levaram a "dar-se conta de que não estava fazendo um filme "sobre primeira infância", mas "sobre um projeto de humanidade".
E das surpresas saídas da caixinha uma que impressionou demais a cineasta foi "Uma constatação que se repetia: a maior revolução da neurociência, da pedagogia, da psiquiatria, é que a criança é formada não só a partir da sua carga genética, mas também a partir das relações que ela tem com o meio ambiente." E ao ouvir "todos aqueles especialistas falarem de ambiente e interações, o que ficou claro para Estela é que eles estavam falando de amor."
Especialistas falando de amor e surpreendendo não só a cineasta que os entrevistou, mas também a repórter que entrevistou a cineasta. "No trailer tem uma fala do prêmio Nobel James Heckman, sobre como o amor é uma parte importante para a economia e pouco valorizada na sociedade.", diz Marília Neustein. Segue outra fala do Nobel de Economia apresentada no documentário.
"Nos Estados Unidos fizemos um estudo que mostra o benefício de um dólar investido nos primeiros anos na vida de uma criança. Quais são os efeitos em termos de redução de crimes, na redução de custos de encarceramento. Descobrimos que para cada dólar investido retornavam por volta de sete dólares. A margem de rendimento é basicamente quanto se ganha por ano para cada dólar investido. Uma caderneta de poupança pode ganhar três, quatro, cinco por cento ao ano. O que descobrimos foi algo entre sete e dez por cento, de rendimento ao ano, o que é um rendimento muito alto, bem mais do que a nossa bolsa de valores. É dar às pessoas a capacidade de serem autônomas, de lidarem com os desafios da vida, ao mesmo tempo tornando-as mais produtivas e assim reduzindo a desigualdade social."
Dá para discordar da afirmação de que "O amor é uma parte importante para a economia e pouco valorizada na sociedade"? "Se há uma coisa que faz o mundo girar é o amor. Só que não o colocamos no centro de tudo. Precisamos que um Nobel de Economia nos diga para crer.", afirma a cineasta. Será que, a partir do que nos diz o Nobel de Economia, passaremos a crer – pergunto eu.
"Você citou as crianças que não recebem amor nesse período da vida" – diz a repórter à cineasta, antecedendo a seguinte indagação: "O que descobriu?"
"Tem uma área grande, a da epigenética, que diz que toda criança nasce com o potencial de ser afetuosa, mas, se não for amada pelos pais, quando for mãe ou pai também não vai saber amar o filho. Então, é intergeracional." – responde a cineasta, provocando na repórter a seguinte pergunta: "Cria-se uma linha sucessória de não amores?"
Pergunta que a cineasta respondeu assim:
"Exatamente. Você perde a capacidade de amar. É claro que somos resilientes, aprendemos, evoluímos, mas os períodos de formação são os que cimentam a nossa personalidade. Então é complexo. Mas o filme traz a mensagem de que se você melhora, tem a capacidade de transformar a humanidade. As crianças têm a potência de uma humanidade dentro delas, são os elementos que estão contando essa história, não a gente."
"Mas o filme traz a mensagem de que se você melhora, tem a capacidade de transformar a humanidade. As crianças têm a potência de uma humanidade dentro delas, são os elementos que estão contando essa história, não a gente.", diz a cineasta.
Sendo assim, o que é que nos resta fazer para transformar a humanidade? O que é que nos resta fazer para transformar a humanidade em algo onde as grandes demonstrações de radicalização e intolerância, citadas pela repórter no final da entrevista, deixem de assolar esta insana sociedade em que sobrevivemos? E para responder a estes questionamentos eu uso aqui à resposta dada pela cineasta à penúltima pergunta que lhe foi feita:
"Valorizar a ética, a moral, a beleza, cuidado, criatividade, liberdade, amor, afeto, chão, abraço... São esses os valores a construir... E a partir deles é que temos de construir uma sociedade.".
Sim, são esses os valores a partir dos quais temos de construir uma sociedade que faça jus ao termo. Valores que precisam ser construídos desde o começo da vida de todas as crianças que cheguem a este mundo. Afinal, será que faz sentido falar em sociedade sem que todos os indivíduos nela presentes sejam tratados como sócios? Será que tratar todos como sócios implica em os pais precisarem estar presentes na vida dos filhos? Com estas indagações eu encerro estas reflexões. E para encerrar a série de postagens provocadas pelo documentário O Começo da Vida, a próxima apresentará algumas de suas passagens que considero marcantes.

sexta-feira, 24 de março de 2017

'A criança não quer pais perfeitos, ele quer pais que estejam presentes' (final)

Continuação de segunda-feira
'Não era filme de 1ª infância. Era sobre a humanidade'
Você entrevista, no filme, pessoas de diversos países, culturas e classes sociais. O que de universal você encontrou?
Fui buscar um recorte universal dos relacionamentos humanos. Estamos todos no mesmo barco e isso ficou muito claro. Falamos com um pai viúvo – que mora na maior favela da África -, com um chinês de classe média e com Gisele Bündchen. E fizemos a mesma pergunta: "O que você quer para seus filhos?" E eles querem a mesma coisa. A Gisele, por exemplo, diz que quer ouvi-los. E a mesma resposta tivemos de uma mãe que tem 13 filhos e vive num ambiente marcado pela violência. Ficou claro que o recorte do filme não é um recorte geográfico, e sim de sentimentos, de relacionamentos humanos, que nos unem.
Isso foi o mais revelador?
O que foi mais revelador foi entender, no decorrer do processo, que esse filme pode ter uma importância grande. Um dos desafios que me propus foi pegar o conhecimento de especialistas renomados que entrevistamos e juntá-lo com o cotidiano de todo mundo. E o filme se tornou uma ferramenta de empoderamento para os pais. Porque mostra que a criança não precisa de brinquedos caros e experiências caras. O que ela precisa é de algo mais acessível. Quem já viu uma criança fazer suas descobertas encontrou ali o extraordinário. É só você conseguir estar presente, mesmo cansada. A criança aceita o seu cansaço. Ela não quer os pais perfeitos, mas presentes.
No trailer tem uma fala do prêmio Nobel James Heckman, sobre como o amor é uma parte importante para a economia e pouco valorizada na sociedade.
Acho que esse conceito ficou muito na casa do poeta viajante, do hippie... Mas se há uma coisa que faz o mundo girar é o amor. Só que não o colocamos no centro de tudo. Precisamos que um Nobel de Economia nos diga para crer. Mas, tudo bem. Ele está falando e espero que isso seja importante para líderes de empresas, políticos, para quem pode fazer mudanças em um escopo maior.
Você citou as crianças que não recebem amor nesse período da vida. O que descobriu?
Tem uma área grande, a da epigenética, que diz que toda criança nasce com o potencial de ser afetuosa, mas, se não for amada pelos pais, quando for mãe ou pai também não vai saber amar o filho. Então, é intergeracional.
Cria-se uma linha sucessória de não amores?
Exatamente. Você perde a capacidade de amar. É claro que somos resilientes, aprendemos, evoluímos, mas os períodos de formação são os que cimentam a nossa personalidade. Então é complexo. Mas o filme traz a mensagem de que se você melhora, tem a capacidade de transformar a humanidade. As crianças têm a potência de uma humanidade dentro delas, são os elementos que estão contando essa história, não a gente.
O que vemos no mundo são grandes demonstrações de radicalização e intolerância.
É verdade. Existem grupos de extremistas que premiam a morte. E, de repente, estamos falando de pais, crianças, e de todo mundo que quer dar para as crianças vontade de vida.
E como fazer isso?
Valorizando a ética, a moral, a beleza, cuidado, criatividade, liberdade, amor, afeto, chão, abraço... São esses os valores a construir... E a partir deles é que temos de construir uma sociedade. Não através de pessimismo, mas a partir de otimismo.
Já se discute a questão de gênero na infância também.
Sim. Acho que é na infância que nasce o machismo. Se você tem não uma licença parental para o homem, é como se essa presença não fosse importante para o bebê. O pai que cuida do filho e exerce a empatia no relacionamento com ele, com certeza será um homem diferente. Não é só o bebê que ganha, o pai também. A sociedade ganha. E o pai que participa valoriza muito mais a função materna também. Mostramos no filme que, muitas vezes, a função materna não precisa ser necessariamente exercida pela mãe. E muitas vezes não é.
Qual o próximo projeto?
Nenhum assunto me é tão visceral, depois desse, como as mudanças climáticas.
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Será que a entrevista da diretora de O Começo da Vida é capaz de começar a provocar reflexões?