quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Reflexões provocadas por "O mais indignado dos discursos"

"Escutar Paulo Mendes da Rocha falar é experimentar um ser humano refletindo enquanto nos faz perceber que arquitetura é filosofia e poesia sem deixar de ser também engenharia. É bastante difícil não se encantar pelas coisas que ele diz."
Encantado pelas coisas que ele diz na reportagem espalhada pela postagem anterior, nesta compartilho algumas reflexões provocadas por elas. Reflexões iniciadas com um parágrafo gerado pela concatenação de trechos da reportagem. Os grifos são meus.
Falar de arquitetura é falar da experiência humana, porque, para Mendes da Rocha, arquitetura é, antes de mais nada, a transformação da geografia, pois, "A natureza não é habitável em si. Tudo é transformado para que a natureza consiga nos abrigar." Portanto, "Um arquiteto que se preze não deve pensar em arquitetura, mas em formas engenhosas de realizar desejos e necessidades humanas", diz ele, desenhando a arquitetura como uma espécie de poesia das formas. É nesse espaço que a arquitetura se coloca como filosofia revolucionária, na medida em que é capaz de pensar uma cidade para todos, talvez a mais nobre das batalhas humanas.
Se, "pensar uma cidade para todos" é ou não é "a mais nobre das batalhas humanas" é algo que não posso garantir; colocar tal atitude em uma das três posições de um pódio composto pelas nobres batalhas humanas é algo que faço sem medo de errar.
A indagação feita por Mendes da Rocha sobre "que tipo de recorde se pretende bater com a construção de arranha-céus com 120 andares" é algo que deveria dar o que pensar. Instigada por uma irrefletida busca de quebra de recordes, a tal da espécie inteligente do universo segue pela vida quebrando os mais estúpidos recordes e justificando um a ela atribuído por Albert Einstein: "Existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo.". Vocês concordam que algo que é infinito é recorde?
"Você não é obrigado a fazer uma bomba atômica só porque conhece profundamente a energia atômica", diz Mendes da Rocha inspirando-me a fazer a seguinte paráfrase. "Você não é obrigado a robotizar tudo só porque conhece profundamente a automação". E levando-me a lembrar, mais uma vez, uma frase de uma bela canção da banda Legião Urbana. Uma frase que, embora escrita para um determinado contexto, no meu entender, tem tudo a ver com a ideia expressa pela frase que inicia este parágrafo e pela paráfrase que a segue: "Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação.".
Diferentemente de muitos colegas de profissão, Mendes da Rocha, "ficou no Brasil durante a ditadura e esperou o horror passar. Hoje, aos 88 anos, ainda sonha com a chegada da revolução, mas apressa-se em explicar no que ela consiste. A revolução de Paulo Mendes da Rocha não prevê homens se matando, mas um horizonte festivo de realizações de sonhos. É, para começar, uma revolução no ensino, a morte definitiva do que fazemos hoje com nossas crianças, que é discipliná-las e mandar que fiquem quietas." "O ensino é repressivo, somos malucos para transformar tudo em mercadorias, inclusive o estudo. Cobrar estudo devia ser proibido", diz.
"É, para começar, uma revolução no ensino, a morte definitiva do que fazemos hoje com nossas crianças, que é discipliná-las e mandar que fiquem quietas." "O ensino é repressivo, somos malucos para transformar tudo em mercadorias, inclusive o estudo.", diz Mendes da Rocha para explicar em que consiste a revolução por ele sonhada. Explicação que me faz lembrar uma postagem recente intitulada 'Crianças não são o futuro. São o presente' na qual é apresentada uma entrevista com a designer indiana Kiran Sethi. Postagem que, na minha "insuspeita" opinião, vale a pena ler.
"Querem que a criança vá para a aula de chofer e carro blindado?", pergunta Mendes da Rocha, indignado, pois, segundo ele, "O que educa uma criança é o caminho da escola, nem tanto a escola em si." "Só esta frase já vale o texto. 'O que educa uma criança é o caminho da escola, nem tanto a escola em si'.", diz-me um ex-colega de trabalho e eterno amigo em um e-mail enviado com alguns comentários sobre a postagem anterior. Concordo plenamente com ele.
Para Mendes da Rocha, o ideal do homem inteligente é não possuir nada e, dentro desse cenário, preferiria levar um tiro a andar em carro blindado. E ao dizer que preferiria levar um tiro a andar em um carro blindado, ele me faz lembrar alguém que, em 28 de agosto de 1963, pronunciou uma expressão que tornou-se um ícone universal: "I have a dream". Indagado sobre o motivo de não usar uma arma, Martin Luther King respondeu que o importante não é o quanto se vive, e sim como se vive. Que afirmação sinistra, não? Uma afirmação que, submetida ao método das recordações sucessivas, leva-me a outra lembrança: a de uma troca de duas frases entre os dois personagens de uma antiga charge do saudoso Millôr Fernandes.
- "Às vezes, para sobreviver, a gente tem que fazer certas coisas.", argumenta um deles.
- "Mas, depois de fazer certas coisas, pra que sobreviver?", questiona o outro.
Vocês concordam que Paulo Mendes da Rocha e Martin Luther King personificam o personagem questionador?
"Ao mergulhar no mundo das ideias de Paulo Mendes da Rocha, entendemos que arquitetura é um discurso indignado contra abusos, absurdos, especulação, desigualdade, explorações. Ou deveria ser. É pelo menos essa a arquitetura que ele tem feito há décadas, e que, aos 88, pretende seguir fazendo e defendendo.", diz o último parágrafo da reportagem que provocou estas reflexões.
"Ao mergulhar no mundo das ideias de Paulo Mendes da Rocha, entendo que" a manutenção de um blog cuja intenção é "espalhar ideias que ajudem a interpretar a vida e provoquem ações para torná-la cada vez melhor" também "é um discurso indignado contra abusos, absurdos, especulação, desigualdade, explorações". Ou deveria ser. É pelo menos essa a manutenção de um blog que tenho feito há seis anos e meio, e que, aos 68, pretendo seguir fazendo e defendendo, diz o último parágrafo desta postagem. Um "seguir fazendo e defendendo" onde outras postagens espalhando ideias desse renomado arquiteto, que tanto nos encanta com as coisas que diz, terão que ser incluídas.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O mais indignado dos discursos

Espalhar ideias do premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha é um desejo antigo que consigo realizar com esta postagem. Dentre algumas coisas que li sobre ele, a escolha pelo espalhamento da reportagem publicada na edição 268 da revista Trip em agosto de 2017 tem a seguinte explicação. Além da habitual exposição de ideias interessantíssimas, presente em qualquer matéria jornalística que fale sobre ele, nessa, Mendes da Rocha toca também no tema da atual sequência de postagens deste blog: crianças. Coincidentemente, ela foi publicada na mesma edição da revista da qual retirei a reportagem Pela janela do Opala da minha mãe, espalhada na primeira postagem da sequência. Em mais uma coincidência, as duas são apresentadas em páginas consecutivas.
O mais indignado dos discursos
"Todos nós sabemos que vamos morrer, mas também sabemos que não nascemos para morrer, nascemos para continuar." Essa é uma das frases ditas pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, 88 anos, no filme Tudo é projeto, obra da cineasta Joana Mendes da Rocha, sua filha. A ideia da vida continuada vem da escola de filosofia de Frankfurt, Paulo explica, emendando por que acha o conceito fascinante: para ele, a reflexão da escola alemã fala a respeito de nossa infinita capacidade de transmitir conhecimento. "Só isso explica por que ainda estamos aqui", diz um dos arquitetos mais premiados do mundo, merecedor, entre muitos outros títulos, de um Pritzker em 2006, o Nobel da arquitetura. "Arquiteto não é quem inventa, é quem continua", explica.
A humanista visão de mundo de Mendes da Rocha e suas muitas intervenções urbanas (em São Paulo ele fez o MuBe, o pórtico da Praça do Patriarca e a reforma da Pinacoteca do Estado, para citar três) vão render a ele um Prêmio Transformadores em 2017.
Falar de arquitetura é falar da experiência humana, e Mendes da Rocha não consegue elaborar a arquitetura sem misturar todas essas coisas porque para ele arquitetura é, antes de mais nada, a transformação da geografia. "A natureza não é habitável em si", disse recentemente em entrevista concedida a um grupo de jovens arquitetos na cidade do Porto, em Portugal. "Tudo é transformado para que a natureza consiga nos abrigar." Nesse sentido, a arquitetura é um trabalho árduo, a eterna transformação da ideia em coisas. É, como ele sugere, a capacidade de lançar a imaginação nos horizontes do absurdo.
Escutá-lo falar é experimentar um ser humano refletindo enquanto nos faz perceber que arquitetura é filosofia e poesia sem deixar de ser também engenharia. É bastante difícil não se encantar pelas coisas que ele diz.
Paulo Mendes da Rocha nasceu em Vitória, no Espírito Santo, fez faculdade no Mackenzie, em São Paulo, e foi contemporâneo do modernista João Batista Vilanova Artigas. O marxismo entrou em suas veias muito cedo e em 1964, quando os militares tomaram o poder, Mendes da Rocha foi proibido de dar aulas na faculdade de arquitetura da Universidade de São Paulo e teve sua licença revogada. Enquanto muitos colegas de profissão escapavam da ditadura saindo do Brasil, ele, que já tinha cinco filhos (hoje, tem seis), ficou e esperou o horror passar. "Um arquiteto que se preze não deve pensar em arquitetura, mas em formas engenhosas de realizar desejos e necessidades humanas", diz, desenhando a arquitetura como uma espécie de poesia das formas.
É nesse espaço que a arquitetura se coloca como filosofia revolucionária, na medida em que é capaz de pensar uma cidade para todos, talvez a mais nobre das batalhas humanas. "[Em São Paulo] há apartamentos que têm uma piscina em cada varanda. É a rota do desastre", disse em entrevista à Trip em 2001 (ele esteve nas Páginas Negras na edição 94, a primeira de um novo projeto editorial que ajudou a inspirar, participando como colaborador na reestruturação da revista).
"Um arquiteto que se preze não deve pensar em arquitetura, mas em formas engenhosas de realizar desejos e necessidades humanas"
Mendes da Rocha não entende a corrida de certa escola de arquitetura voltada para a especulação e para o consumo desenfreado que manda erguer um prédio de 180 andares. Ele se pergunta quem gostaria de morar ou de trabalhar no 120º andar e que tipo de recorde se pretende bater com esses arranha-céus. "Você não é obrigado a fazer uma bomba atômica só porque conhece profundamente a energia atômica", diz. Arquitetura é muito mais do que isso e, assim como a vida, é experimentação eterna.
O CAMINHO DA ESCOLA
"Ele sonha com a chegada da revolução, mas apressa-se em explicar no que ela consiste. A revolução de Paulo Mendes da Rocha não prevê homens se matando, mas um horizonte festivo de realizações de sonhos. É, para começar, uma revolução no ensino, a morte definitiva do que fazemos hoje com nossas crianças, que é discipliná-las e mandar que fiquem quietas. "O ensino é repressivo, somos malucos para transformar tudo em mercadorias, inclusive o estudo. Cobrar estudo devia ser proibido", diz e cita o que aconteceu com a escola Caetano de Campos, no Centro de São Paulo, que era uma das mais tradicionais e renomadas da cidade. Ao construírem ali uma saída de metrô, a escola deixou de existir e deu lugar à Secretaria de Cultura. Trata-se, ele diz, de uma degeneração. "Querem que a criança vá para a aula de chofer e carro blindado?", pergunta, indignado. "O que educa uma criança é o caminho da escola, nem tanto a escola em si."
É esse o cenário em que a arquitetura passa a ser uma narrativa, "um discurso consistente sobre a experiência humana no sentido de como vamos habitar o planeta". Esse, ou qualquer outro planeta, a bem da verdade.
Para Mendes da Rocha, o ideal do homem inteligente é não possuir nada e, dentro desse cenário, preferiria levar um tiro a andar em carro blindado. Ao mergulhar no mundo de suas ideias, entendemos que arquitetura é um discurso indignado contra abusos, absurdos, especulação, desigualdade, explorações. Ou deveria ser. É pelo menos essa a arquitetura que ele tem feito há décadas, e que, aos 88, pretende seguir fazendo e defendendo.
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"Escutar Paulo Mendes da Rocha falar é experimentar um ser humano refletindo enquanto nos faz perceber que arquitetura é filosofia e poesia sem deixar de ser também engenharia. É bastante difícil não se encantar pelas coisas que ele diz."
E para quem "se encantar pelas coisas que ele diz", não "experimentar refletir" sobre o que se ouve talvez seja também algo "bastante difícil"! Será que vocês concordam?

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Reflexões provocadas por "Crianças não são o futuro. São o presente"

Iniciando estas reflexões seguem dois parágrafos gerados por concatenação de ideias da designer indiana Kiran Sethi expressas em diferentes respostas apresentadas na reportagem-entrevista espalhada pela postagem anterior. Os grifos são meus.
"O movimento ('Design for Change') acredita fortemente que crianças não são o futuro e que precisamos dizer a elas que são o presente, que podem fazer do mundo um lugar melhor hoje mesmo.", pois (...) "Quando conseguimos estabelecer a mentalidade da capacidade de transformação desde a infância, as pessoas passam a se preparar desde cedo para viver em um mundo melhor, e não para prepará-lo no futuro.".
"Não estamos pedindo a essas crianças que mudem o mundo, mas que mudem os seus mundos. E em todo tipo de situação, qualquer que seja, as crianças têm a capacidade de olhar além e atuar como agentes de mudanças efetivas.", pois (...) "Toda criança possui as duas ferramentas mais poderosas e necessárias à mudança: um coração, que acredita, observa e se inspira; e uma mente, capaz de imaginar. Esse é o ponto de partida, e esses dois ingredientes existem em todo ser humano. Se estimulamos continuamente essa ideia, ela se torna a mentalidade dominante (...).
"Será que é possível concordar que "crianças não são o futuro, e sim o presente"? O presente no qual – se estimuladas – elas poderão "passar a se preparar desde cedo para viver em um mundo melhor, e não para prepará-lo no futuro". O presente no qual – se estimuladas – elas poderão "mudar os seus mundos" para melhor, pois, como diz Kiran, "Toda criança possui as duas ferramentas mais poderosas e necessárias à mudança: um coração, que acredita, observa e se inspira; e uma mente, capaz de imaginar."
Diante da afirmação de Kiran de que "toda criança pode e deve mudar o mundo à sua volta", a repórter pergunta "o que é necessário para isso, especialmente em países de grande desigualdade social, onde muitas sequer têm acesso à educação formal", e dela recebe a seguinte resposta:
"As histórias de mudança mais poderosas que chegam até nós vêm de pequenas vilas indianas. Uma criança que ensinou a mãe, então analfabeta, a ler e escrever, por exemplo. Sempre repito: não é preciso nada especial. Ninguém precisa de treinamento ou diploma para acreditar em algo. Todo mundo nasce com essa capacidade. (...) Não precisa de tecnologia, aparelhos luxuosos, smartphones, manuais... O problema é justamente acharmos que precisamos de um monte de coisas para fazer a educação acontecer."
Sim, "O problema é justamente acharmos que precisamos de um monte de coisas para fazer acontecer" não só a educação como qualquer outra coisa que preste. Sim, "Ninguém precisa de treinamento ou diploma para acreditar em algo" que preste. Aliás, lamentavelmente, na maioria das vezes, um diploma torna-se até mesmo um empecilho para acreditar em algo que preste. Será que é possível concordar que a "história da criança que ensinou a mãe, então analfabeta, a ler e escrever" serve como validação das ideias de Kiran expressas no parágrafo anterior?
Perguntada sobre como aplicar os princípios por ela defendidos em realidades socioeconômicas e culturais tão distintas, Kiran respondeu assim:
"Não oferecemos conteúdo, mas, sim, contexto. Os mesmos quatro passos estimulados na nossa unidade em Ahmedabad, na Índia, podem ser aplicados em qualquer lugar do mundo. O que o programa pede, em primeiro lugar, é que você tenha um coração e sinta. Qualquer criança é capaz disso. Também pede que você use a imaginação. E, depois, que se coloque em ação. O quarto passo é que você seja um contador de histórias. Repito: toda criança, de qualquer país, pode fazer isso. Não dizemos o que cada comunidade precisa mudar, mas afirmamos que qualquer criança pode apontar o que a incomoda. Por isso, o projeto tem sido tão bem sucedido em viajar para tantos países."
Por "não oferecer conteúdo, mas, sim, contexto", diferentemente do que ocorre no teatro corporativo com algo denominado "as melhores práticas", o modelo criado por Kiran Sethi possibilita que "Os mesmos quatro passos estimulados na unidade em Ahmedabad (A Riverside School), na Índia, possam ser aplicados, - com êxito-, em qualquer lugar do mundo. (...) Com base em quatro pilares – sinta, imagine, faça, compartilhe -, o modelo incentiva alunos a perceber o que lhes incomoda, criar soluções para o problema, agir e, então, dividir a história para que outras pessoas sejam contagiadas pela noção do 'eu posso'".
"Na maioria das escolas é assim: os alunos se tornam um número ou uma vareta ambulante na sala de aula.", diz Kiran Sethi na reportagem-entrevista publicada na edição de 10 de setembro de 2017 do jornal O Globo sob o título 'Crianças não são o futuro. São o presente'. "Nesse modelo, a concepção é apenas uma: os pais pagam e os alunos vão receber o conhecimento", diz Kiran em uma reportagem intitulada Crianças como agentes de transformação de suas comunidades publicada na edição de 23 de setembro de 2017 do mesmo jornal. Ou seja, na maioria das escolas é assim: há os que têm permissão para transmitir conhecimento – os adultos -, e os que têm permissão apenas para receber – as crianças.
Transmitir e receber conhecimento! Será que faz sentido dividir a humanidade em um grupo que vem a esta dimensão para ensinar e um que vem apenas para aprender ou será que ensinar e aprender são duas funções para as quais todos são aptos e, portanto, a todos compete desempenharem em sua passagem por esta dimensão? Intitulada Um aprendizado casual, a postagem de 31 de julho de 2017 pode ajudá-los a refletir sobre a indagação feita na frase anterior.
"Toda criança possui as duas ferramentas mais poderosas e necessárias à mudança: um coração, que acredita, observa e se inspira; e uma mente, capaz de imaginar.", diz Kiran Sethi. "Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. Pena que sejam poucas as que se lembram disso.", diz Antoine de Saint-Exupéry, o autor de O Pequeno Príncipe. Se o mundo tem solução, é através da criança diz o título da postagem publicada neste blog em 28 de agosto de 2015.
Considerando o que é dito no parágrafo anterior, será que faz sentido afirmar que, se o mundo tem solução, ela passa pela recuperação da memória das pessoas grandes e pelo espaço dado às crianças para que possam colocar em prática "as duas ferramentas mais poderosas e necessárias à mudança: um coração, que acredita, observa e se inspira; e uma mente, capaz de imaginar."? Será que vale a pena espalhar as ideias de Kiran Sethi? O que vocês acham? Esforçar-se para conseguir lembrar de que já foi criança influirá bastante nas respostas a tais indagações, compreendido?

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

'Crianças não são o futuro. São o presente'

Após duas postagens nas quais são apresentados dois episódios envolvendo duas crianças - uma de 7 anos e uma de 6 – e onde aqueles a quem ainda reste um mínimo de sensibilidade dificilmente deixarão de enxergar os nobres sentimentos demonstrados pelas crianças, este blog traz uma excelente reportagem-entrevista de Mariana Nicodemus publicada na edição de 10 de setembro de 2017 do jornal O Globo sob o título 'Crianças não são o futuro. Crianças são o presente'. Um texto que, no meu entender, vale a pena ler.
'Crianças não são o futuro. São o presente'
Depois de se decepcionar com a escola em que o filho estudava, a designer indiana, que fará uma palestra magna no Encontro Internacional Educação 360, resolveu educá-lo em casa. Alguns anos depois, criou sua própria escola, a partir de uma nova metodologia
Estimulada por uma questão pessoal, a designer indiana Kiran Sethi criou há 16 anos um modelo inovador de educação na cidade de Ahmedabad. Desde então, a missão da Riverside School é empoderar crianças para que elas se sintam capazes e sejam, desde pequenas, protagonistas da mudança social de suas comunidades. Com base em quatro pilares – sinta, imagine, faça, compartilhe -, o modelo incentiva alunos a perceber o que lhes incomoda, criar soluções para o problema, agir e, então, dividir a história para que outras pessoas sejam contagiadas pela noção do "eu posso". Para uma aula sobre direitos humanos, por exemplo, estudantes de 10 anos passaram algumas horas enrolando incensos. Depois da atividade, as crianças foram às ruas convencer adultos de que o trabalho infantil precisava ser abolido na Índia. Criadora também do programa internacional "Design for Change", Kiran Sethi fala sobre a necessidade de incentivar meninos e meninas a não esperarem o futuro para mudar o mundo.
Como você criou a Riverside School?
Quando meu filho começou a freqüentar a escola, fiquei ao mesmo tempo muito brava e desarmada pela velocidade com que ele aprendeu a dizer: "Eu não posso, eu não consigo". É tão fácil ensinar uma criança que ela não é capaz... Isso acontece quando se nega a ela o próprio espaço ou nem mesmo se sabe seu nome. Na maioria das escolas é assim: os alunos se tornam um número ou uma vareta ambulante na sala de aula. Eu me recusei a aceitar essa realidade. Em vez de reclamar ou culpar alguém, apenas disse "eu posso fazer melhor". Tirei meu filho da escola e comecei a educá-lo em casa. Logo apareceram amigos dizendo que, se eu podia fazer isso por ele, podia fazer pelos filhos dos outros também. A princípio, as aulas aconteciam na minha casa. Comecei só com a primeira série e depois fui subindo, ano a ano. Foi um processo lento até começarmos a construir nossos prédios. Não tive pressa, a única urgência era a de construir uma educação melhor.
Qual a diferença deste método para os sistemas de ensino mais tradicionais?
Essencialmente, a maioria das escolas foca em "o que" e "como". A Riverside School destaca "quem" e "por que". Nossa missão é fazer com que todas as crianças se formem com paixão e com compaixão. Hoje temos 410 alunos sendo educados de acordo com os nossos quatro pilares: sinta, imagine, faça e compartilhe.
Como esse tipo de educação impacta o futuro dessas crianças?
No momento em que crianças percebem que não estão mais sendo negligenciadas e que não precisam esperar por permissão para fazer algo melhor, quando sabem que possuem habilidades e têm o superpoder do "eu posso" dentro delas, o mundo deixa de precisar de conserto. Eu sigo acreditando que o problema com a educação atual é ensinar que o "mundo melhor" só acontece após a graduação. Quando conseguimos estabelecer a mentalidade da capacidade de transformação desde a infância, as pessoas passam a se preparar desde cedo para viver em um mundo melhor, e não para prepará-lo no futuro.
Há uma preocupação com limites e disciplina quando não se diz mais às crianças o que fazer e permite-se que tenham autonomia?
Eu me preocuparia mais em ter crianças que não falam e não fazem perguntas. Claro que há perturbações e, às vezes, uma certa confusão. Mas eu diria que o segredo é a confiança. Crianças amam acreditar que os adultos acreditam nelas. Quando você confia, se surpreende frequentemente com como são incríveis e capazes, sempre criando algo e tentando fazer o melhor. Crianças não causam perturbação sem motivo, elas o fazem quando sentem necessidade de se rebelar contra a autoridade. Mas, se você acredita nelas e as apóia, qual a necessidade de se rebelarem?
Como esse método extrapola os muros da Riverside School e alcança crianças em todo o mundo?
Quando vimos que esses quatro passos funcionavam muito bem com as crianças da nossa escola, entendemos que precisávamos chegar também a outros espaços. O mesmo processo aplicado na Riverside School é oferecido hoje em dezenas de países. No Brasil, isso acontece há cinco anos, em parceria com o Instituto Alana. O movimento acredita fortemente que crianças não são o futuro e que precisamos dizer a elas que são o presente, que podem fazer do mundo um lugar melhor hoje mesmo.
Como aplicar esses princípios em realidades socioeconômicas e culturas tão distintas?
Não oferecemos conteúdo, mas, sim, contexto. Os mesmos quatro passos estimulados na nossa unidade em Ahmedabad, na Índia, podem ser aplicados em qualquer lugar do mundo. O que o programa pede, em primeiro lugar, é que você tenha um coração e sinta. Qualquer criança é capaz disso. Também pede que você use a imaginação. E, depois, que se coloque em ação. O quarto passo é que você seja um contador de histórias. Repito: toda criança, de qualquer país, pode fazer isso. Não dizemos o que cada comunidade precisa mudar, mas afirmamos que qualquer criança pode apontar o que a incomoda. Por isso, o projeto tem sido tão bem sucedido em viajar para tantos países.
Você diz que toda criança pode e deve mudar o mundo à sua volta. O que é necessário para isso, especialmente em países em desenvolvimento e de grande desigualdade social, como a Índia e o Brasil, onde muitas sequer têm acesso à educação formal?
As histórias de mudança mais poderosas que chegam até nós vêm de pequenas vilas indianas. Uma criança que ensinou a mãe, então analfabeta, a ler e escrever, por exemplo. Sempre repito: não é preciso nada especial. Ninguém precisa de treinamento ou diploma para acreditar em algo. Todo mundo nasce com essa capacidade. Não estamos pedindo a essas crianças que mudem o mundo, mas que mudem os seus mundos. E em todo tipo de situação, qualquer que seja, as crianças têm a capacidade de olhar além e atuar como agentes de mudanças efetivas. Não precisa de tecnologia, aparelhos luxuosos, smartphones, manuais... O problema é justamente acharmos que precisamos de um monte de coisas para fazer a educação acontecer. Toda criança possui as duas ferramentas mais poderosas e necessárias à mudança: um coração, que acredita, observa e se inspira; e uma mente, capaz de imaginar. Esse é o ponto de partida, e esses dois ingredientes existem em todo ser humano. Se estimulamos continuamente essa ideia, ela se torna a mentalidade dominante e, então, você não precisa mais dizer a algumas crianças que elas são pobres. Porque elas não são pobres no coração e na imaginação. Não tem nada a ver com pobreza, mas com conexão e empatia.
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Será que vale a pena refletir sobre o que é dito por Kiran Sethi na reportagem-entrevista?

sábado, 23 de setembro de 2017

Reflexões provocadas por "Pela janela do Opala da minha mãe"

Encerrando o cumprimento da promessa feita no antepenúltimo parágrafo da postagem Super-heróis contra o cinismo, segue o segundo texto que considero capaz de ajudá-los a pensar sobre a existência de uma idade até a qual uma criança ainda não aprendeu a ser cínica.
"Eu devia ter uns 7 anos quando enxerguei pela primeira vez uma criança de rua.", diz Milly Lacombe em um maravilhoso texto publicado na revista Trip uns 43 anos depois (Milly tem hoje 50 anos) e espalhado pela postagem anterior deste blog. Texto onde ela cita uma cena que tanto a marcou, conforme se pode deduzir a partir do que ela diz algumas frases depois.
"Ainda posso ver seu rosto, a expressão de seus olhos pelo vidro do Opala. Sei exatamente em que esquina estávamos – e até por isso a memória daquele dia volta sempre que passo por lá. ", diz Milly fazendo-me lembrar uma frase que ouvi há 17 anos no filme A Praia: "É fácil dar as costas, mas não é tão fácil esquecer." Uma frase que, no meu entender, dá o que pensar a quem ainda demonstre alguma sensibilidade ao ler os dois próximos parágrafos, extraídos do maravilhoso texto de Milly Lacombe.
"(...) É o que fazemos nessa viagem maluca pela Terra: passamos o bastão; colaboramos com os que estão aqui agora, aceitamos a colaboração dos que vieram antes, deixamos alguma algum conhecimento de herança para os que nos substituirão e, especialmente, aprendemos que as mais individuais de nossas conquistas nunca são mérito de nossos esforços e talentos, mas resultado da colaboração de uma comunidade inteira."
"Dominamos completamente o planeta não porque somos mais espertos e ágeis do que um chipanzé e sim porque somos a única espécie capaz de uma cooperação flexível e em grande escala", escreve o historiador israelense Yuval Noah Harari em seu Homo Deus. O que nos distingue das demais espécies é, portanto, a capacidade de cooperar, de nos ajudar, de nos organizar, de viver em comunidades.
Diante do que é dito nos dois parágrafos anteriores, será que faz algum sentido dar as costas àqueles com quem devemos cooperar? Será que o próprio fato de esquecer não ser tão fácil quanto dar as costas ajuda a responder a questão anterior? O que vocês acham?
"Aos olhos de uma criança as injustiças do mundo provocam as únicas reações possíveis: choque e vontade de mudar as coisas. Aos olhos de um adulto, já completamente inserido nesse mundo maluco e cruel em que vivemos, o efeito já não é o mesmo: 'É assim que as coisas são', dizemos a nós mesmos. Mas as coisas não deveriam ser assim, as coisas não poderiam ser assim, e nós não deveríamos nos acostumar que as coisas fossem assim. Essa sociedade adoentada em que vivemos não foi imposta por ordem divina, ela foi criada por cada um de nós, e todas as coisas que homens e mulheres criaram podem ser destruídas, reformadas, renovadas.", diz Milly Lacombe.
Sim, "Aos olhos de uma criança as injustiças do mundo provocam reações" como a descrita em uma notícia publicada na edição de 23 de setembro de 2016 do jornal Folha de S.Paulo sob o título Em carta, menino pede que Obama busque criança síria. Notícia que é reproduzida a seguir.
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Em carta, menino pede que Obama busque criança síria
O menino norte-americano Alex, de seis anos, ficou consternado com o que aconteceu ao pequeno Omran Daqneesh, 5, filmado dentro de uma ambulância com o rosto coberto de poeira e sangue após uma ataque aéreo na cidade de Aleppo, na Síria. O irmão mais velho de Omran, Ali, morreu. Alez, que mora perto de Nova York, escreveu uma carta ao presidente americano Barack Obama sobre o caso.
"Você pode por favor ir buscá-lo e trazê-lo [para minha casa]? Nós estaremos esperando com bandeiras, flores e balões. Nós lhe daremos uma família e ele será nosso irmão", escreveu a criança.
Em cúpula de líderes sobre a situação dos refugiados na Organização das Nações Unidas, na terça (20), Obama citou a carta do menino.
"A humanidade que uma criança pode mostrar, uma criança que ainda não aprendeu a ser cínica [...] e que entende a noção de tratar alguém que é como ele com compaixão e bondade – todos podemos aprender com Alex", disse o presidente.
Casa Branca fez um vídeo em que Alex lê a carta, que repercutiu em redes sociais nesta quinta (22). A foto alusiva ao vídeo apresentada na notícia é mostrada no final da postagem.
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"Nós lhe daremos uma família e ele será nosso irmão", escreveu a criança. (...) "A humanidade que uma criança pode mostrar, uma criança que ainda não aprendeu a ser cínica [...] e que entende a noção de tratar alguém que é como ele com compaixão e bondade – todos podemos aprender com Alex", disse o presidente.
"Aprender com uma criança que ainda tenha humanidade a mostrar, com uma criança que ainda não aprendeu a ser cínica.", eis o que enxergo como ponto de partida para solucionarmos os problemas do mundo, pois, como diz a postagem publicada neste blog em 28 de agosto de 2015, Se o mundo tem solução, é através da criança.
"Aos olhos de uma criança as injustiças do mundo provocam as únicas reações possíveis: choque e vontade de mudar as coisas. Aos olhos de um adulto, já completamente inserido nesse mundo maluco e cruel em que vivemos, o efeito já não é o mesmo: 'É assim que as coisas são', dizemos a nós mesmos.", diz Milly Lacombe fazendo-me lembrar uma frase de Antoine de Saint-Exupéry, o autor de O Pequeno Príncipe. "Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. Pena que sejam poucas as que se lembram disso."
Não se lembrar de ter sido criança é realmente uma pena, pois significa não lembrar também de que até certa idade não se era cínico. Seis anos tinha o menino americano que protagoniza a notícia citada nesta postagem. Uns sete anos (segundo a própria) tinha Milly Lacombe na época em que ocorreu a cena por ela narrada em seu maravilhoso texto reproduzido na postagem anterior. Será que as duas postagens com as quais pretendo ajudá-los a pensar sobre a existência de uma idade até a qual uma criança ainda não aprendeu a ser cínica atingiram seu intento?