quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Os dois tipos de casamento

Em mais uma postagem focalizando a divisão das pessoas em dois grupos, após Os dois decisivos tipos de pessoas, segue uma crônica do livro "O Retorno e Terno..." do saudoso Rubem Alves. Intitulada Tênis x frescobol, ela mostra que, em relação ao casamento, as pessoas podem ser divididas em dois grupos: o das que lidam com ele como se fosse um jogo de tênis e o das que lidam como se fosse um jogo de frescobol.
Tênis X Frescobol
Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: "Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: 'Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar".
Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo...". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma."
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...
A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
"Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: 'Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: 'Tens razão, minha querida'. A situação está salva e o ódio vai aumentando".
Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.
Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...
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Será que a crônica do saudoso Rubem Alves é capaz de provocar reflexões?

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Os dois decisivos tipos de pessoas

Dividir as pessoas em dois grupos, em função de como se comportam em relação a questões sutilmente propostas por essa coisa denominada vida, é uma prática bastante comum da maioria dos integrantes da dita espécie inteligente do universo. Por enxergar no comportamento dos protagonistas da postagem anterior (realizarem algo do qual não obterão benefício, mas que beneficiando aos que os sucederem beneficiarão a própria sociedade como um todo) algo alinhado com uma ideia que há muito desejo espalhar, esta sucede àquela.
Qual é a ideia que há muito desejo espalhar? A ideia de que uma das maiores questões da vida é decidir como comportar-se em relação a "aceitar que a construção de um mundo que preste é uma tarefa que exige a participação de todos os que nele estejam". Afinal, como digo em meu perfil no blog, "sou alguém que acredita que a qualidade de uma sociedade é resultado das ações de todos os seus componentes".
"Aceitar que a construção de um mundo que preste é uma tarefa que exige a participação de todos os que nele estejam.", eis uma questão que, sutilmente proposta pela vida, divide as pessoas em dois grupos: o das que não aceitam e o das que aceitam. Por que cito primeiro o grupo das que não aceitam? Porque, no meu entender, ou melhor, no meu constatar, esse é assustadoramente maior do que o outro. É impressionante a quantidade de pessoas cujo comportamento demonstra claramente a não aceitação de que a qualidade de uma sociedade é resultado das ações de todos os seus componentes.
Não aceitação que leva tais pessoas a viverem apenas em função de seus egoísticos interesses e a considerarem tudo e todos nada mais do que matéria-prima a ser usada da forma que elas bem (ou seria mal?) entenderem. A viverem considerando que, por uma questão de meritocracia, a umas cabem apenas os direitos enquanto a outras cabem apenas os deveres. A viverem de uma forma que, por uma questão de merecimento (algo que não deve ser confundido com meritocracia), gera nesta insana sociedade uma série interminável de males, pois, toda e qualquer coisa que ocorre com uma sociedade (mesmo as coisas mais deploráveis) é algo que ela, como um todo, fez por merecer.
Fazer por merecer! Eis a causa de todos os males de uma sociedade; e também a chave para deles livrar-se e, coletivamente, construir uma sociedade que preste. "A boa sociedade não é uma dádiva, mas trata-se de um processo de construção coletivo.", eis uma afirmação (encontrada em um livro intitulado Magia & Gestão – Aprendendo a ReAdministrar sua Vida Pessoal, de autoria de Geraldo R. Caravantes e Wesley E. Bjur) com a qual concordam plenamente os integrantes do segundo (e, infelizmente, menor) dos dois grupos citados dois parágrafos acima. O pequeno grupo das pessoas que "Aceitam que a construção de um mundo que preste é uma tarefa que exige a participação de todos os que nele estejam.".
Por que considero que decidir como comportar-se em relação a "Aceitar que a construção de um mundo que preste é uma tarefa que exige a participação de todos os que nele estejam." seja uma das maiores questão da vida? Porque os caminhos seguidos por nossos pensamentos e por nossas ações são diametralmente opostos, conforme aceitemos ou não a proposta que nos é feita na referida questão. Porque é ao decidir por quais caminhos seus pensamentos e suas ações seguirão que os integrantes de uma sociedade decidem a que tipo de mundo eles desejam chegar.
A um mundo onde reinem a paz e a harmonia, provenientes do convívio entre indivíduos que consideram-se integrantes de um todo que os une e no qual há lugar para todos os que nele estejam. Ou a um mundo onde reinem uma violência e uma desarmonia cada vez maiores, provenientes de uma insuportável proximidade entre indivíduos que consideram-se separados, em uma feroz competição pela própria sobrevivência e no qual a cada dia haverá menos lugares para todos os que nele estejam.
Plantadores de tâmaras! Será que é possível construir algo que faça jus ao termo civilização sem contar com uma quantidade considerável de indivíduos dotados da mentalidade dos plantadores de tâmaras? No meu entender, não. Portanto, que tal passarmos a viver em conformidade com tal mentalidade? Que tal tornar-se um (a) plantador (a) de tâmaras?
O que o parágrafo acima tem a ver com esta postagem? Afinal, foi com ele que terminei a postagem anterior. Por que o repito nesta? Pela afinidade que enxergo entre as duas. Conforme é dito no primeiro parágrafo desta postagem, foi por enxergar no comportamento dos plantadores de tâmaras algo alinhado com o que é dito nesta que esta sucedeu àquela. Além do mais, no meu entender, ele presta-se a uma excelente paráfrase para encerrar esta.
Pessoas que "aceitem que a construção de um mundo que preste é uma tarefa que exige a participação de todos os que nele estejam"! Será que é possível construir algo que faça jus ao termo civilização sem contar com uma quantidade considerável de indivíduos dotados da mentalidade desse tipo de pessoas? No meu entender, não. Portanto, que tal passarmos a viver em conformidade com tal mentalidade? Que tal tornar-se um (a) aceitador (a) da ideia de que a construção de um mundo que preste é uma tarefa que exige a participação de todos os que nele estejam?

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Quem planta tâmaras não colhe tâmaras

Prosseguindo com as postagens "agrícolas", após Valeu a intenção da semente, segue Quem planta tâmaras não colhe tâmaras. Inspiradas na agricultura, algumas metáforas foram criadas com a intenção de levar os integrantes da pretensa espécie inteligente do universo a agirem de maneira mais sábia ao longo de sua trajetória por essa coisa denominada vida. Apresentadas em algumas diferentes versões, existem duas bastante conhecidas sobre as quais considero conveniente falar antes de focalizar a que empresta título a esta postagem.
Dizendo que "Aquilo que semearmos é o que vamos colher", a primeira adverte-nos para a importância de sabermos escolher o que semear. Dizendo que "A semeadura é opcional, mas a colheita é obrigatória.", a segunda adverte-nos quanto à imprescindibilidade de pensar bem antes de decidir se semearemos ou não.
Advertências que, estupidamente, negligenciadas fazem com que a espécie supracitada siga pela vida semeando uma série de coisas nocivas das quais germinarão inúmeros males dos quais ela tanto reclama como se nada tivesse a ver com a sua criação. Negligências que a levam a validar constantemente uma afirmação feita em uma belíssima canção da Legião Urbana: "nos perderemos entre monstros da nossa própria criação".
E "perdida entre monstros da sua própria criação", ao equívoco de semear coisas que contribuem para piorar o mundo em que vive, provocado pela negligência em relação às duas metáforas já citadas, em uma clara manifestação de desconhecimento ou de interpretação equivocada de outra metáfora, a dita espécie acrescenta a sua vida um novo equívoco: deixar de semear coisas das quais apenas as futuras gerações poderão tirar proveito. A que metáfora eu me refiro? A expressa em um antigo ditado árabe: "Quem planta tâmaras não colhe tâmaras"
Que ditado estranho! Se "Aquilo que semearmos é o que vamos colher", que história é essa de que "Quem planta tâmaras não colhe tâmaras"?! Em que se fundamenta essa estranha metáfora? No fato de que, antigamente, as tamareiras levavam de 80 a 100 anos para produzir os primeiros frutos. Ou seja, quem plantava uma tamareira não vivia tempo suficiente para colher tâmaras da árvore que plantara. É! A explicação elimina a estranheza citada acima, mas provoca outra. Qual? Se as pessoas não vivem tempo suficiente para colher tâmaras como se explica a existência de tâmaras? Afinal, segundo uma egoística lógica vigente nesta civilização (sic), por que alguém perderia seu tempo plantando o que não vai colher? Para responder esta indagação e tentar eliminar a nova estranheza, segue uma curta história sobre a plantação de tâmaras.
Conta-se que, certa vez, um senhor de idade avançada plantava tâmaras no deserto, quando um jovem o abordou perguntando:
– Por que o senhor perde seu tempo plantando o que não vai colher?
O senhor olhou nos olhos do jovem e, calmamente, respondeu:
– Se todos pensassem como você, ninguém colheria tâmaras.
E tome estranheza, hein! Um senhor de idade avançada plantando o que não vai colher! Um senhor de idade avançada, e de ideias idem, não? Será que existe ideia mais avançada do que plantar para que aqueles que nos sucedam tenham o que colher? Será que existe ideia mais avançada do que trabalhar não apenas para si próprio, mas também em prol das gerações futuras. Um senhor de idade avançada que, quem sabe, tenha conseguido lançar no coração de um jovem as sementes das avançadas ideias que já germinaram no seu. Um senhor de idade avançada cujo modo de pensar me faz lembrar algo dito por outro no primeiro parágrafo de uma reportagem-entrevista publicada na edição 268 da revista Trip em agosto de 2017 com o título O mais indignado dos discursos e espalhada por este blog em 13 de outubro de 2017.
"Todos nós sabemos que vamos morrer, mas também sabemos que não nascemos para morrer, nascemos para continuar.", é uma frase do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, 88 anos, dita no filme Tudo é projeto, obra da cineasta Joana Mendes da Rocha, sua filha. A ideia da vida continuada vem da escola de filosofia de Frankfurt, Paulo explica, emendando por que acha o conceito fascinante: para ele, a reflexão da escola alemã fala a respeito de nossa infinita capacidade de transmitir conhecimento. "Só isso explica por que ainda estamos aqui", diz um dos arquitetos mais premiados do mundo.
"'Todos nós sabemos que vamos morrer, mas também sabemos que não nascemos para morrer, nascemos para continuar'. (...) 'Continuar devido a nossa infinita capacidade de transmitir conhecimento'. (...) 'Capacidade essa que fundamenta a única explicação por que ainda estamos aqui'", eis algumas das avançadas ideias que o premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, aos 88 anos, pretende seguir praticando e defendendo, como é dito no último parágrafo da reportagem-entrevista já citada. Vocês concordam que as ideias de Paulo Mendes da Rocha o identificam perfeitamente com o senhor de idade avançada que plantava tâmaras no deserto?
Das palavras de Paulo Mendes da Rocha discordo apenas das seguintes: "Todos nós sabemos que (...)". Não, nem todos sabem o que ele e o senhor de idade avançada que plantava tâmaras no deserto sabem, pois a maioria ainda identifica-se com o jovem que questionara o senhor quanto a uma ação que julgara desprovida de sentido. E é por isso que a metáfora que intitula esta postagem, a história do senhor com idade avançada que plantava tâmaras e as avançadas ideias delas derivadas precisam continuar sendo espalhadas nesta civilização (sic) onde, diante de algo que precisa ser feito, a maioria reage assim: o que é que eu ganho com isso? Ou seja, onde, infelizmente, a maioria ainda pensa apenas em si e age de forma simplesmente oposta a dos plantadores de tâmaras.
Plantadores de tâmaras! Será que é possível construir algo que faça jus ao termo civilização sem contar com uma quantidade considerável de indivíduos dotados da mentalidade dos plantadores de tâmaras? No meu entender, não. Portanto, que tal passarmos a viver em conformidade com tal mentalidade? Que tal tornar-se um (a) plantador (a) de tâmaras?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Reflexões provocadas por "Valeu a intenção da semente"

"Seu problema é que você só olha para a meta, mas esquece da caminhada. Tenha menos ansiedade e observe as coisas a sua volta. (...) Se você só olhar o fim, pode até chegar nele, mas não vai ter aprendido nada que o caminho pode oferecer".
Dizendo não lembrar se as palavras foram exatamente essas, Rafael Martí diz ser essa uma lição inesquecível que lhe foi oferecida pelo editor do jornal Essência Vital, e acrescenta. "Naquele momento, embora minha mente racional tenha compreendido sobre a necessidade de desacelerar meu tempo, eu não tinha efetivamente colocado em prática esse ensinamento. Ele ficou guardado durante alguns anos" até começar a ser colocada em prática.
Será que, mais do que uma lição inesquecível a ser gravada em sua mente racional, as palavras do editor podem ser interpretadas como uma semente esperançosa lançada no coração de um jovem jornalista no momento em que seus caminhos se encontraram? Será que o editor de um jornal intitulado Essência Vital acreditava que, se nada mais resultar da ação de semear algo que preste, pelo menos, dela valerá a intenção da semente? No meu entender, sim. Por que será que sempre vale a intenção da semente? Em resposta a esta questão segue o último parágrafo do maravilhoso texto de Rafael.
"Porque o que queremos é um mundo melhor. Mas se ele não for o melhor dos mundos, pelo menos estaremos nos dedicando a esse ideal com afinco. Afinal, como diria o saudoso Henfil, irmão do Betinho: 'Se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente'."
Embora seja intitulado Valeu a intenção da semente e com essa afirmação seja encerrado, como se pode perceber desde o primeiro parágrafo, o texto de Rafael Martí tem como tema o caminhar.
"Sobre a caminhada muitos poetas escreveram. Eu gosto muito de uma música do Almir Sater na qual ele diz: 'ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais'. Em poucos versos de nossa língua um autor conseguiu ser tão profundo em tão poucas palavras. Todos nós somos apressados. E um dia chegaremos à sabedoria de andar devagar apenas para observar o caminho, sem nos preocupar com o fim em si mesmo, mas com a qualidade dos nossos passos até o ponto de chegada.", diz Rafael.
Também gosto muito da música citada por Rafael e concordo com quase tudo que é dito no parágrafo anterior. De que discordo? De que "Todos nós somos apressados". Afinal, se já existe quem "ande devagar porque já teve pressa", nem todos são apressados, não é mesmo? Mas é fato que a imensa maioria é apressada.
"Outro verso que me encanta é do poeta espanhol Antonio Machado. 'Caminhante não há caminho. Se faz o caminho ao caminhar.'. Esses versos mostram que muitas vezes o fim traçado se modifica com a nossa jornada. É fundamental que caminhemos com honestidade e amor ao caminho. Porque o fim dele não nos pertence."
"Mas sem dúvida alguma a frase mais perfeita sobre isso é de Mahatma Gandhi. Ele disse certa vez que 'a felicidade estava na luta e não na conquista em si. Por isso sacrifício total é vitória total'. Foi quando li essa frase que minha ficha caiu. Os fins não justificam os meios como diriam os maquiavélicos de plantão, mas os meios devem estar em sintonia com os fins. E mais do que isso. Se não alcançarmos a meta, ao menos que nos dediquemos a ela com toda nossa energia e amor."
Também extraídos do texto de Rafael, os dois parágrafos acima são aqui reproduzidos com a finalidade de "explicar" uma compilação feita com a intenção de associá-la a algo marcante que ouvi em um filme que assisti em 1992 (faz tempo, hein!) e que jamais esqueci.
"'Caminhante não há caminho. Se faz o caminho ao caminhar.' (...) 'muitas vezes o fim traçado se modifica com a nossa jornada. É fundamental que caminhemos com honestidade e amor ao caminho. Porque o fim dele não nos pertence.' (...) 'a felicidade estava na luta e não na conquista em si. Por isso sacrifício total é vitória total'. (...) 'Os fins não justificam os meios como diriam os maquiavélicos de plantão, mas os meios devem estar em sintonia com os fins. E mais do que isso. Se não alcançarmos a meta, ao menos que nos dediquemos a ela com toda nossa energia e amor'."
Será que é possível enxergar na compilação apresentada no parágrafo anterior alguma relação com o que no filme intitulado Cidade da Esperança é dito ser o Canto de Guerra Suaile: "Só a luta dá sentido à vida. O triunfo ou a derrota estão nas mãos dos deuses. Festejemos a luta!". Os grifos são meus e foram feitos com a intenção de facilitar a visão da relação que eu enxergo entre as palavras de Rafael Martí, as de Mahatma Gandhi e as do Canto de Guerra Suaile.
Entendendo que uma das melhores maneiras de assimilar algo novo que se ouça ou que se leia é fazendo associações com coisas anteriormente assimiladas, recorrer ao método das associações sucessivas é algo que faço o tempo todo, conforme já deve ter sido percebido por quem já tenha lido uma quantidade considerável de postagens deste blog. Sendo assim, segue uma associação que, no meu entender, eu não deveria deixar de compartilhar com vocês nesta postagem.
"O que educa uma criança é o caminho da escola, nem tanto a escola em si.", diz o premiado arquiteto e urbanista Paulo Mendes da Rocha, em uma reportagem-entrevista intitulada O mais indignado dos discursos, espalhada por este blog em 13 de outubro de 2017. "Se você só olhar o fim, pode até chegar nele, mas não vai ter aprendido nada que o caminho pode oferecer", diz Rafael Martí em um texto intitulado Valeu a intenção da semente, espalhado pela postagem anterior. Vocês concordam que as duas afirmações têm tudo a ver?
Em um texto cujo tema é o caminhar, originalmente publicado na edição de julho de 2006 da revista Mandala, onde Rafael Martí mantinha uma coluna, ele faz a seguinte afirmação:
"E aqui estou eu. Por isso que o nome dessa coluna é Caminhando. Nesse espaço nossa intenção é compartilhar com o leitor um modo mais lúdico de ver o mundo. Sem tanta pressa e com muita utopia."
Em uma postagem provocada pelo texto de Rafael Martí, publicada recentemente em um blog intitulado Espalhando ideias, parafraseando sua afirmação, digo o seguinte:
"E aqui estou eu. Por isso que o nome deste blog é Espalhando ideias. Nesse espaço minha intenção é compartilhar com o leitor um modo mais consciente de ver o mundo. Sem tanta pressa e com muita utopia."
"Sem tanta pressa e com muita utopia."! Será que são essas as condições imprescindíveis para o plantio de tâmaras? Plantio de tâmaras?! Que conversa estranha é essa?! Na postagem anterior, Valeu a intenção da semente. Nesta, essa estranha história de plantio de tâmaras. Será que este blog está sendo transformado em um blog agrícola? Será que em vez de Espalhando ideias ele terá seu nome mudado Semeando ideias? Será que espalhando e semeando têm alguma coisa a ver? Será que a próxima postagem será inspirada em um antigo ditado árabe que diz que Quem planta tâmaras não colhe tâmaras?
"Sem tanta pressa e com muita utopia", quem viver e continuar visitando este blog, a partir da próxima segunda-feira saberá. Evidentemente, se até lá o blogueiro também ainda estiver nesta dimensão. Afinal, como é dito no texto de Rafael Martí, "o fim do caminho não nos pertence", por mais sinistra que possa lhes parecer tal afirmação.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Valeu a intenção da semente

O texto apresentado a seguir foi publicado na edição de julho de 2006 da revista Mandala. Assinado por Rafael Martí e intitulado Valeu a intenção da semente, classifico-o como um texto que o passar do tempo não consegue desatualizar. Hoje, a revista Mandala é encontrável em WWW.revistamandala.com.br.
Valeu a intenção da semente
Um dia, estava conversando com o editor do saudoso jornal Essência Vital, primeiro periódico onde trabalhei, sobre planos para o futuro e ele encerrou nossa conversa com uma lição a qual nunca mais esquecerei. Disse ele: "Rafael, seu problema é que você só olha para a meta, mas esquece da caminhada. Tenha menos ansiedade e observe as coisas a sua volta. Veja as belezas do caminho, as flores, espinhos, pedras, pássaros. Se você só olhar o fim, pode até chegar nele, mas não vai ter aprendido nada que o caminho pode oferecer".
Não lembro se as palavras foram exatamente essas. Mas com certeza a lição foi aprendida em sua essência. Eu precisava deixar a ansiedade de lado e aprender a caminhar. Naquele momento, embora minha mente racional tenha compreendido sobre a necessidade de desacelerar meu tempo, eu não tinha efetivamente colocado em prática esse ensinamento.
Ele ficou guardado durante alguns anos até hoje. Não que hoje eu seja um monge zen, capaz de meditar por horas seguidas e não me importar com o trânsito louco, o vizinho que coloca aquele funk no último volume ou aquele chefe que você jura que não regula bem da cabeça. Mas pelo menos hoje eu consigo perceber que essas pedras são partes integrantes da paisagem, da qual também fazem parte o sorriso da mulher amada, o riso com os companheiros de jornada, o gorjear dos pássaros, o pôr do sol. Logo, devemos, e isso estou aprendendo a duras penas, aceitar as rosas com os espinhos, ou a vida do jeito que ela é.
Agindo assim, o fim não perde sua importância. Ainda traçamos metas e as buscamos. Mas como o término da jornada não depende só de nós, mas também das circunstâncias nas quais estamos imersos, a felicidade passa a ser algo tangível quando estamos mais preocupados com nosso presente do que com um futuro distante.
Sobre a caminhada muitos poetas escreveram. Eu gosto muito de uma música do Almir Sater na qual ele diz: "ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais". Em poucos versos de nossa língua um autor conseguiu ser tão profundo em tão poucas palavras. Todos nós somos apressados. E um dia chegaremos à sabedoria de andar devagar apenas para observar o caminho, sem nos preocupar com o fim em si mesmo, mas com a qualidade dos nossos passos até o ponto de chegada.
Outro verso que me encanta é do poeta espanhol Antonio Machado. "Caminhante não há caminho. Se faz o caminho ao caminhar.". Esses versos mostram que muitas vezes o fim traçado se modifica com a nossa jornada. É fundamental que caminhemos com honestidade e amor ao caminho. Porque o fim dele não nos pertence.
Mas sem dúvida alguma a frase mais perfeita sobre isso é de Mahatma Gandhi. Ele disse certa vez que "a felicidade estava na luta e não na conquista em si. Por isso sacrifício total é vitória total". Foi quando li essa frase que minha ficha caiu. Os fins não justificam os meios como diriam os maquiavélicos de plantão, mas os meios devem estar em sintonia com os fins. E mais do que isso. Se não alcançarmos a meta, ao menos que nos dediquemos a ela com toda nossa energia e amor.
E aqui estou eu. Por isso que o nome dessa coluna é Caminhando. Nesse espaço nossa intenção é compartilhar com o leitor um modo mais lúdico de ver o mundo. Sem tanta pressa e com muita utopia.
Porque o que queremos é um mundo melhor. Mas se ele não for o melhor dos mundos, pelo menos estaremos nos dedicando a esse ideal com afinco. Afinal, como diria o saudoso Henfil, irmão do Betinho: "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente".
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Se, como é afirmado no parágrafo acima, "o que queremos é um mundo melhor", será que ao publicar seu maravilhoso e atemporal texto a intenção do autor foi lançar algumas sementes capazes de fazerem brotar em nós a vontade de cooperar na construção de tal mundo? Será que refletir sobre o que é dito no texto poderá contribuir para a germinação das sementes?