quarta-feira, 7 de maio de 2014

Dia do Silêncio

Nesta civilização onde os dias do ano são chamados dia disto ou dia daquilo, vocês já ouviram falar em Dia do Silêncio? Como é que é?! Dia do Silêncio?! Bom da cabeça o Guedes jamais deve ter sido, mas agora ele parece ter pirado de vez! Como é que em plena era da comunicação, com as pessoas falando cada vez mais, ele vem com essa ideia de Dia do Silêncio?! Onde é que ele descobre essas coisas?! Eis algumas das espantadas perguntas que imagino que tenham passado por várias cabeças boas após a leitura da primeira linha desta postagem. Acertei?
Respondendo a última das perguntas imaginárias, digo que a descoberta do Dia do Silêncio aconteceu ao ler um texto publicado na edição de maio de 1996 de uma publicação intitulada Alvorecer que era distribuída em lojas de produtos naturais. Tentei descobrir como e onde surgiu tal dia, mas nada encontrei. Nem no "oráculo" dos internautas encontrei tais informações. O máximo que consegui foi confirmar sua existência por intermédio de alguns sites de datas comemorativas e nos quais ele aparece no dia 7 de maio. Sendo assim, considerando que datas comemorativas devem ser criadas com a intenção de lembrar a importância do que se deseja comemorar, seguem alguns argumentos que, no meu entender, podem justificar a criação do Dia do Silêncio.
"De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, da vida em conjunto e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: 'No princípio era o verbo'. Eu acrescento: 'Antes do verbo, era o silêncio.' É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve."
O parágrafo acima foi copiado de um texto de Rubem Alves intitulado Ouvir para aprender, publicado na edição de 21 de dezembro de 2004 da revista Sinapse, uma extinta publicação mensal do jornal Folha de S. Paulo. Quem fala muito não ouve, diz Rubem Alves, em uma afirmação incontestável, pois para quem fala muito não sobra tempo para ouvir, e falar e ouvir simultaneamente é uma demonstração inequívoca de desinteresse por aquilo que ouve, ou melhor, por aquilo que não ouve.
Falar muito e cada vez mais, e consequentemente ouvir pouco e cada vez menos, eis um dos grandes males desta insana civilização (sic) onde a cada dia são mais aplicáveis algumas afirmações feitas por Rollo May, há 61 anos, em seu livro O homem à procura de si mesmo e repetidas no parágrafo abaixo.
"Importante não é o que se diz, e sim que haja sempre alguém falando. O silêncio é um grande crime, pois significa solidão e medo. Não se deve aprofundar as sensações, nem levar muito a sério o que se diz. Aparentemente as palavras produzem mais efeito se a pessoa não tenta compreendê-las."
O silêncio é um grande crime, pois significa solidão e medo, diz Rollo May. E nesta sociedade onde tantos crimes reais são cometidos, é justamente diante desse crime figurado que as pessoas não se sentem bem, conforme afirma Rubem Alves nos dois trechos de Ouvir para Aprender apresentados a seguir.
"Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa pára por não haver o que dizer, tratamos logo de falar qualquer coisa, para pôr um fim ao silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare."
"Os orientais entendem melhor do que nós. Se não me engano, o nome do filme em que vi esta cena é 'Aconteceu em Tóquio'. Duas velhinhas se visitavam. Por horas ficavam juntas, sem dizer uma única palavra. Nada diziam porque no seu silêncio morava um mundo. Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras. A filosofia ocidental é obcecada pela questão do ser. A filosofia oriental, pela questão do vazio, do nada. É no vazio da jarra que se colocam flores."
Comecei citando Rubem Alves que diz que "quem fala muito não ouve". Prossegui citando Rollo May que diz que "importante não é o que se diz, e sim que haja sempre alguém falando". E torno a citar Rubem Alves para repetir algo dito na primeira citação: "De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, da vida em conjunto e da cidadania é a audição. (...) É do silêncio que nasce o ouvir."
É do silêncio que nasce o ouvir. E é o ouvir que propicia a aprendizagem do amor, da vida em conjunto e da cidadania, ou seja, o aprendizado dos mais nobres valores. Os valores imprescindíveis à construção de uma civilização que faça jus a esta denominação.
Silêncio cuja obtenção torna-se cada vez mais difícil devido ao nosso fascínio pela estonteante evolução tecnológica que vivenciamos. Evolução que possibilita às empresas de telefonia (espicaçadas pela maximização de seus lucros) estimular os incautos a falarem cada vez mais, embora tenham cada vez menos o que dizer, se considerarmos a relevância daquilo que se fala.
Fale Mais / Fale Ilimitado, eis o nome de dois planos lançados por empresas de telefonia. Planos cujo contraponto pode ser Faça Menos Silêncio / Faça Silêncio Limitado. E se é do silêncio que nasce o ouvir, o contraponto também pode ser Ouça Menos / Ouça Limitado. E se é o ouvir que propicia a aprendizagem do amor, da vida em conjunto e da cidadania, a consequência da adesão ao Fale Mais / Fale Ilimitado é a não aprendizagem de tais valores, não é mesmo? Não aprendizagem da qual resulta um mundo cada vez mais violento e que impede a construção de uma civilização que fazendo jus a esta denominação possibilite-nos, finalmente, conseguir viver em conjunto, com amor e com cidadania.
Considerando que não falar demais em blogs e assemelhados é uma forma de propiciar aos seguidores e leitores o silêncio necessário para refletirem sobre o que lerem (não só aqui, mas também em outros lugares), encerro esta postagem prometendo-lhes não publicar outra antes do próximo domingo (outra data comemorativa), pois postar freneticamente é outra maneira de prejudicar o silêncio de seguidores e leitores.
Na esperança de ter conseguido justificar a existência do Dia do Silêncio, deixo aqui o meu desejo de que tenham um ótimo dia. E considerando que a finalidade de datas comemorativas é lembrar a importância do que se comemora, a intenção desta postagem é lembrá-los da importância de desfrutarem de momentos de silêncio em todos os dias do ano. Quanto a tentar convencê-los de que ainda não pirei de vez é algo que não passa pela minha cabeça. Até porque tentar convencer alguém de algo que nós mesmos não estejamos convencidos é algo que não se deve fazer, não é mesmo?

2 comentários:

ROSANGELA PEIXOTO disse...

Olá Guedes, embora não tenha lido todas as suas postagens, as que li gostei, e em especial esta última do silencio. Há muito tempo ouvi uma definição da palavra INTIMIDADE como sendo "a possibilidade de arrumar um armário na presença do outro em silencio". Infelizmente não me lembro a fonte para citá-la. Quando penso a respeito, imagino que muitas vezes a necessidade frenética de falar seja para suprir a lacuna de uma natural intimidade que dispensa palavras desnecessárias.Grata

Guedes disse...

Olá Rosangela,

É uma enorme satisfação receber o primeiro comentário de uma seguidora do blog, e agradeço pela atenção dada a ele. Gostei muito da definição de INTIMIDADE citada por você. INTIMIDADE é "a possibilidade de arrumar um armário na presença do outro em silencio". Interessante é que, no meu entender, tanto tal definição quanto o que você pensa a respeito dela têm muito a ver com algo dito por Rubem Alves e citado na postagem. "Duas velhinhas se visitavam. Por horas ficavam juntas, sem dizer uma única palavra. Nada diziam porque no seu silêncio morava um mundo. Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras". Você concorda?

Espero que continue encontrando postagens que lhe agradem e que volte a comentar alguma que julgue merecer um comentário.

Abraços,
Guedes