terça-feira, 27 de outubro de 2015

'A independência é uma ilusão'

Neste blog onde a maioria das postagens é "sugerida" pela anterior, para suceder "Competição ou cooperação?" segue uma reportagem-entrevista publicada na edição de 29 de julho de 2015 do jornal O Globo em um espaço intitulado Conte algo que não sei. Gyalwa Dokhampa, mestre budista, é o entrevistado; Sara Sanz é a entrevistadora; o título dado à reportagem-entrevista é 'A independência é uma ilusão' e o motivo de ela ter sido escolhida para suceder "Competição ou cooperação?" vocês descobrirão durante a leitura da entrevista ou, na pior das hipóteses, ao terminar a leitura da postagem.
'A independência é uma ilusão'
No Rio para orientar retiro espiritual em Botafogo, natural do Reino do Butão e devoto da "Felicidade Interna Bruta", sacerdote vê necessidade de "educar corações"
"Moro no Butão, um pequeno reino dos Himalaias conhecido pela sua política de 'Felicidade Interna Bruta', e tenho 34 anos. Sou mestre em filosofia budista pela Universidade Monástica Tango, e, em 2013, lancei o livro 'The Restful Mind'. Tento aplicar a tradição do budismo à vida moderna."
(Gyalwa Dokhampa, mestre budista)
Conte algo que não sei.
Na medicina budista dizemos que a doença é raiva, desejo e ignorância. Esses sentimentos provocam diferentes movimentos de ar e de vento, causando males. Quando você fica raivosa, você pode não estar fazendo nada, mas o seu batimento cardíaco fica mais acelerado e a sua pressão arterial aumenta. Há uma profunda conexão simbiótica entre o corpo e a mente.
Qual a mensagem mais importante que tenta passar?
Penso que, nas sociedades ocidentais, as pessoas querem ser independentes, mas a verdade é que ninguém consegue ser independente, somos todos interdependentes. A independência é uma ilusão. Devemos tomar consciência de que somos interdependentes e, depois disso, pensar no que podemos fazer para cuidar das coisas dais quais dependemos, como o ambiente, as árvores, o ar, a água, o nosso país e todos os seres humanos com quem partilhamos este planeta.
O senhor fala em sociedade ocidental. Qual é o maior problema neste lado do mundo?
Antigamente, quando as pessoas precisavam de água, elas iam à fonte. Por isso, sabiam que não podiam poluir a água, era algo que podiam ver diretamente. Agora, quando queremos água, vamos ao supermercado. A ligação com muitas coisas se perdeu, a ligação com as árvores, com a água, e até entre nós, seres humanos, temos essa sensação de que não precisamos de ninguém, mas isso não é verdade. As pessoas não sabem quem realmente são e o quão desconectadas se encontram com a sua própria natureza.
Nikola Tesla afirmou um dia o seguinte: "Se você quer descobrir os segredos do Universo, pense em termos de energia, frequência e vibração." O que diria sobre isso?
Concordaria. E diria apenas frequência mental, a nossa própria mente. E isso significa que ninguém pode nos fazer felizes a não ser nós mesmos. Através da frequência mental, da meditação, tomamos consciência de quem somos, do que nos faz feliz, do que nos deixa triste e por quê.
E é mesmo possível ficar anos sem comer e meses sem beber água somente através da meditação?
Sim, já vimos várias coisas dessas acontecerem no nosso mosteiro, nos Himalaias. Todos os invernos fazemos uma meditação com os monges sem roupas a uma temperatura de -40º, e, em volta deles, a neve se derrete por causa do calor provocado pela meditação.
Diz-se que o ser humano usa muito pouco da capacidade do cérebro.
Não sei do cérebro, mas da mente, sem dúvida. Somos muito reativos. Se algo acontece a você, algo que, supostamente, o faz feliz ou triste, você simplesmente reflete isso sem analisar o que é o entusiasmo. O que é a felicidade? Qual a sua aparência? Por que está feliz? Por que o que a fazia feliz ontem não a faz hoje? Se alguém falar que uma pessoa é linda, ela se torna ainda mais linda?
Qual a sua missão?
Em termos gerais, meu propósito é a educação, e acho que é importante educarmos o coração. As pessoas têm muito conhecimento sobre o ambiente, mas acho que o coração tem de ser educado para que se importe.
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"Penso que, nas sociedades ocidentais, as pessoas querem ser independentes, mas a verdade é que ninguém consegue ser independente, somos todos interdependentes. A independência é uma ilusão. Devemos tomar consciência de que somos interdependentes e, depois disso, pensar no que podemos fazer para cuidar das coisas dais quais dependemos, como o ambiente, as árvores, o ar, a água, o nosso país e todos os seres humanos com quem partilhamos este planeta."
Será que, lendo (com atenção) o parágrafo acima, alguém consegue não enxergar uma perfeita identificação entre interdependência e imprescindibilidade de cooperação? Afinal, se somos todos interdependentes será que a competição faz algum sentido ou a única coisa que faz sentido é a cooperação? O que vocês acham?
"Antigamente, quando as pessoas precisavam de água, elas iam à fonte. Por isso, sabiam que não podiam poluir a água, era algo que podiam ver diretamente. Agora,quando queremos água, vamos ao supermercado. A ligação com muitas coisas se perdeu, a ligação com as árvores, com a água, e até entre nós, seres humanos, temos essa sensação de que não precisamos de ninguém, mas isso não é verdade. As pessoas não sabem quem realmente são e o quão desconectadas se encontram com a sua própria natureza."
Sim, ao deixar de "ver diretamente, (...) a ligação com muitas coisas se perdeu, (...) e até entre nós, seres humanos, temos essa sensação de que não precisamos de ninguém, mas isso não é verdade. As pessoas não sabem quem realmente são e o quão desconectadas se encontram com a sua própria natureza." Ao deixar de "ver diretamente, a ligação com muitas coisas se perdeu", pois como diz um velho ditado (que descreve muito bem o comportamento da maioria dos integrantes da dita espécie inteligente do universo), "o que os olhos não veem o coração não sente". E o ver, é o ver face a face, ou seja, sem o uso de interfaces, pois ver indiretamente leva a também sentir indiretamente, o que pouca, ou talvez nenhuma, diferença tem comparado com o não sentir.
E ao falar em coração e em sentir, o referido ditado leva-me a associá-lo à resposta do mestre budista ao ser perguntado sobre qual é a sua missão. "Em termos gerais, meu propósito é a educação, e acho que é importante educarmos o coração. (...) acho que o coração tem de ser educado para que se importe." Será que tal propósito deve ser apenas do mestre budista?
"As pessoas não sabem quem realmente são e o quão desconectadas se encontram com a sua própria natureza" e é aí que surge "essa sensação de que não precisamos de ninguém, mas isso não é verdade", e sim uma ilusão: a ilusão de nossa independência em relação às "coisas dais quais dependemos, como o ambiente, as árvores, o ar, a água, o nosso país e todos os seres humanos com quem partilhamos este planeta". Ilusão que nos impede de enxergar a interdependência entre tudo e todos neste planeta. Interdependência! Eis uma questão fundamental para a construção de algo que faça jus ao termo civilização. Questão já foi focalizada em algumas postagens deste blog, dentre elas as citadas abaixo.
E que voltará a ser focalizada na próxima postagem.

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